Revisitando o Vaticano II “Vivam, por isso, os fiéis em estreita união com os outros homens do seu tempo, e esforcem-se por compreender perfeitamente os seus modos de pensar e de sentir, expressos na cultura. Conciliem os conhecimentos das novas ciências e teorias e das mais recentes invenções com os costumes e o ensinamento da doutrina cristã, para que a prática religiosa e a rectidão moral progridam neles a par do conhecimento científico e dos avanços diários da técnica; assim, poderão apreciar e interpretar todas as coisas com autêntico sentido cristão”. – GS 62.
A percepção dos Padres conciliares era de que a ciência, a cultura, a fé, com a mesma origem divina, não poderiam “andar de candeias às avessas”. O Deus que nos concede a inteligência para fazer a investigação é o mesmo que nos convida ao obséquio da inteligência e da vontade na atitude de fé. Mais ainda: a fé é a luz que permite projectar sobre todos os saberes o sentido profundo que lhes vem da Verdade plena.
Não estamos perante a afirmação de que o estudo da fé se deve fazer como quem vasculha nos museus da história uma simbologia cultural, a par com outras. Estamos perante a exigência de uma fé esclarecida, com perfeita identidade, que dialoga com os saberes, das ciências, das teorias; que percebe as matrizes culturais plasmadas progressivamente por esses saberes e teorias, que lhes reconhece autonomia no seu desenvolvimento, que lhes oferece a convicção iluminante da fé, para que vão mais longe nos seus sonhos e os equacionem na verdadeira perspectiva de serviço da Humanidade.
Só que isso não se faz sem instrumentos orgânicos, que polarizem e encaminhem ordenadamente as formas de diálogo. E podemos perguntar-nos como é que, a quarenta anos do Concílio, são tão escassas as iniciativas de aproximação da fé às ciências, tão incipientes, da parte da Igreja, as decisões de diálogo cultural.
Subsiste, sem dúvida, a suspeita da incompatibilidade, o receio ou preconceito da perversão por parte de uns, da tacanhez ou obscurantismo por parte de outros. O Concílio é claro no estímulo aos estudiosos: “Os que se dedicam às ciências teológicas nos Seminários e Universidades empenhem-se em colaborar com os homens versados nas outras ciências, pondo em comum os seus trabalhos e conhecimentos”. – GS 62. Resta saber se têm coragem de o fazer os estudiosos; e se reflectem o estímulo da Igreja para que dêem passos em frente. Até porque o Vaticano II remete para a investigação teológica a responsabilidade de “facilitar aos homens cultos, nos diversos ramos do saber, um mais perfeito conhecimento da fé”.
Querubim Silva
