Dom e tarefa nunca acabada

À Luz da Palavra – XXX Domingo do Tempo Comum – A A liturgia deste domingo convida-nos a amar os outros como Deus nos ama, isto é, a viver no amor, que é o cerne da nossa experiência cristã. O que Deus pede a cada crente, é que permita que Deus inunde o seu próprio coração do amor, que nos vem de Deus e que de nós brota para o irmão e a irmã. Isto exige uma constante passagem do amor egoísta ao amor altruísta e oblativo.

O evangelho diz-nos, de forma inequívoca, que toda a revelação de Deus se resume no amor, amor a Deus e amor aos irmãos e irmãs. Os dois mandamentos não podem separar-se: “amar a Deus” é cumprir a sua vontade e estabelecer com os irmãos e as irmãs relações de amor, de solidariedade, de partilha, de serviço, até ao dom total da vida. O resto é explicação, desenvolvimento, aplicação à vida prática dessas duas coordenadas fundamentais da vida cristã. O Mestre sabe que nós temos necessidade de ler, como quem escuta e medita, este duplo mandamento da Lei de Deus, porque tanto um como outro se nos tornam difíceis de praticar. Criados por Deus e para Deus, e dele dependentes em tudo, como o centro vital de onde nos vem todo o ser, existir e agir, estamos contaminados com profundas raízes malignas, que invertem esta ordem, que poderia ser natural, fazendo-nos rodopiar em volta de nós mesmos, quais narcisistas, que se comprazem na contemplação de si mesmos e da obra das suas mãos. Amar a Deus e ao próximo é um dom e uma tarefa nunca acabada, porque o limite do amor é amar sem limites, em fidelidade criativa.

Na primeira leitura, o Senhor adverte-nos de que, apesar do amor devido ao próximo ser universal e incondicional, há no entanto, uma certa categoria de pessoas que, à partida, devemos amar. Se o não fizermos, irritaremos o Senhor. Estas pessoas são o estrangeiro, o pobre, a viúva, aqueles que Deus mais protege, porque normalmente são menos amados por nós. Deus não aceita a perpetuação de situações intoleráveis de injustiça, de arbitrariedade, de opressão, de desrespeito pelos direitos e pela dignidade dos mais pobres e dos mais débeis. Qualquer injustiça ou arbitrariedade praticada contra um irmão ou uma irmã mais pobre ou mais débil é um crime grave contra Deus, que nos afasta da comunhão com Ele e nos coloca fora do âmbito da Aliança.

Na segunda leitura, Paulo elogia a comunidade de Tessalónica, por ter crescido na comunhão com o Pai, em Jesus Cristo, cumprindo o mandamento do amor pelo acolhimento a Deus e aos irmãos e irmãs. É uma comunidade cristã modelo, que, apesar da hostilidade e da perseguição, aprendeu a percorrer, com Cristo e com Paulo, o caminho do amor e do dom da vida, tornando-se semente de fé e de amor, que deu frutos em outras comunidades cristãs do mundo grego. Este percurso interpela-nos a nós, hoje, que também integramos comunidades paroquiais e que formamos comunidades de trabalho. Que testemunho cristão damos nós aí? Que acolhimento fazemos às pessoas? Como lhes revelamos o amor com que Deus as ama?

Leituras do XXX Domingo Comum: Ex 22,20-26; Sl 18,2-3.7.47.51 (17); 1 Tes 1,5c-10; Mt 22,34-40.

Deolinda Serralheiro