“Casa onde não há pão…”

Questões Sociais 1. Parafraseando um velho provérbio, Portugal é uma casa onde não há pão, quase todos protestam e quase ninguém tem razão, embora cada um tenha a sua quota-parte.

É notório, há muito tempo, que não existe pão, isto é, não existem condições de vida condignas para toda a gente. Milhares de pessoas e de famílias vivem abaixo do mínimo de subsistência, passam fome ou vivem desprovidas de outras condições de vida básicas.

Hoje em dia, surgiram, ou acentuaram-se, dois fenómenos (para além da pobreza que sempre existiu): um deles consiste no facto de grupos sócio-profissionais médio-superiores verem diminuídos os seus direitos; e o outro consiste na mobilidade descendente que afecta, especialmente, os grupos sócio-profissionais médio-inferiores. Estes, devido ao desemprego e a outras contrariedades, correm o risco de imersão na pobreza.

2. Neste panorama deprimente, quase toda a gente protesta. Protesta mais e mais alto quem possui mais força e mais rendimentos. Protesta menos e menos visivelmente quem possui menos força e menos rendimentos.

Quem não protesta? – Os grupos que estão a ganhar com a crise, porventura à margem da lei. Também não protesta quem não consegue, devido à opressão ou à exaustão. Há um terceiro grupo de pessoas que também não protesta; estas pessoas, embora insatisfeitas como as outras, entendem que a sua posição deve ser predominantemente construtiva e baseada na assunção de responsabilidades.

3. No meio de tantos protestos, muita gente não tem razão. Têm-na, sobretudo, os que não podem protestar.

Claro que é cómodo transferir todas as culpas para o Governo. No entanto, alguns contestatários mais fortes beneficiaram fortemente do excesso de despesa praticado por governos anteriores. E, por outro lado, não se conhece nenhuma proposta global razoável, proveniente desses grupos que tão sobranceiramente criticam o Governo e todos os políticos. Acresce até que alguns desses mesmos grupos são, pelo menos, tão contestáveis no exercício das suas funções quanto dizem ser o Governo.

4. No meio de tanto protesto, observam-se duas anomalias verdadeiramente gritantes. Uma consiste na falta de movimentos sociais de apelo à responsabilidade colectiva e de apresentação de propostas solucionadoras dos graves problemas que afectam o país. A outra consiste na persistência da velha hostilidade do Estado contra os cidadãos, famílias, empresas, instituições e outras entidades. O Estado, através do Governo, dos Tribunais e da Administração Pública, não sabe ou não quer estar ao lado (ser amigo) da sociedade civil. E a sociedade civil não quer ou não sabe responder de maneira diferente.

Até quando persistirão estas anomalias?