Não andemos a dormir

À Luz da Palavra – XXXIII Domingo do Tempo Comum – A A liturgia da Palavra deste domingo torna-se mais veemente no anúncio do fim dos tempos, simbolizado, desde sempre, pelo fim de cada ano litúrgico. As três leituras têm um tom escatológico e sublinham a precaridade da vida terrena, pois é efémera e passageira. Contudo, é nela e por ela, que temos acesso à vida eterna, em Cristo Jesus. Os textos sublinham a necessidade que cada pessoa tem de viver a sua própria vida com sabedoria, sabendo discernir os tempos e os momentos, fazendo boas opções e tomando as melhores decisões, de acordo com a lei de Deus, inscrita no seu coração.

A primeira leitura apresenta uma mulher como exemplo de vigilância e de dinamismo em fazer render os dons recebidos. Ela é elogiada publicamente, isto é, “às portas da cidade”, porque é capaz de pensar e de agir, assumindo inteira responsabilidade dos seus actos; não se poupa a esforços para governar a sua casa e para se dedicar com amor aos seus familiares. Embora apenas lhe sejam imputadas tarefas caseiras (eram essas que na circunstância histórica eram confiadas à mulher), o importante é perceber o exemplo da mulher que vive na lei do Senhor e põe a render os seus talentos, qualquer que seja a sua missão. É curiosa a actualidade deste texto, escrito por volta do ano 800 a.C., numa Igreja e numa sociedade, onde a mulher procura ainda o lugar que o Criador lhe confiou, porque continua a ser excluída de tarefas para as quais está vocacionada.

No evangelho, Jesus coloca-nos diante da nossa própria situação existencial. A cada um de nós é confiada uma missão na terra, que devemos realizar com sentido de criatividade e de responsabilidade, fazendo render os dons específicos com que o Senhor nos dotou. A parábola interpela-nos no sentido de nos interrogarmos sobre o que estamos a fazer para potenciar os dons que recebemos, a nosso favor e a favor dos outros, do mundo, da sociedade, da comunidade cristã, da família. É cada pessoa, individualmente, que há-de responder diante de Deus pela gestão dos seus recursos pessoais. Tanto nos preocupamos em gerir os bens materiais, em alcançar rendimentos e lucros, e, por vezes, somos tão perdulários no que concerne aos bens espirituais! No evangelho, Jesus avisa-nos de que, no nosso dia, o Pai nos pede contas da nossa administração. E, a partir dela, podemos entrar imediatamente na alegria do Senhor, ou ficar em estado de maior ou menor espera dessa mesma alegria.

Na segunda leitura, a mesma advertência é feita por Paulo. Não andemos a dormir, “como os outros, mas permaneçamos vigilantes e sóbrios”, como filhos da luz que somos, esperando a vinda do Senhor. Se, quanto às coisas materiais, procuramos ser vigilantes, de modo a usufruir os melhores rendimentos que nos são oferecidos pela banca ou pelas seguradoras, porque não prestamos igual ou maior atenção à insistente Palavra de Deus, quando nos apela a fazer render os bens espirituais, que recebemos no baptismo e ao longo da nossa vida?

Leituras do XXXIII Domingo Comum

Prov 31,10-13.19-20.30-31; Sl 128 (127); 1 Tes 5,1-6; Mt 25,14-30

Deolinda Serralheiro