Revisitando o Vaticano II Parecem-me de todo convenientes algumas reflexões feitas, já há anos, pelo Professor Arnaldo Pinho, sobre a avaliação da recepção do Concílio em Portugal. De facto, sem a assimilação da doutrina conciliar pelo Povo de Deus, não está completo o Concílio.
No contexto do projecto pastoral da Diocese de Aveiro para os próximos três anos e no âmbito do necessário diálogo com o Mundo que integramos, acho pertinentes as considerações feitas, que ouso transcrever.
“Ao falarmos da Igreja em relação ao mundo, estamos naturalmente a pensar no conjunto da iluminação teológica e das atitudes práticas para que aponta a Gaudium et Spes. (…) No capítulo da tradução prática ou recepção da Gaudium et Spes, sublinharíamos os seguintes aspectos como obrigatórios:
a) A necessidade de dar espaços aos organismos cristãos de intervenção e aos movimentos que praticam a revisão de vida.
A Constituição Gaudium et Spes salientou expressamente que, sem a análise dos sinais dos tempos, a acção dos cristãos se faria fora do contacto com o mundo. Tem a Igreja prestado atenção a estes movimentos?
Por outro lado, a existência e desenvolvimento de organismos de intervenção cristãos, quer sejam recomendados, como a Comissão Justiça e Paz, quer sejam da livre iniciativa dos cristãos, em áreas de Ética, da promoção da Justiça ou da Paz, ou outras, são o melhor fruto duma séria “recepção” do Concílio.
b) A necessidade de dar relevo à caridade cristã.
Referimo-nos aqui a todas as formas de diaconia ou serviço através das quais passa a dimensão libertadora da caridade cristã e que vão desde as Conferências Vicentinas, aos grupos de apoio, eventuais, a esta ou aquela causa.
Por estas formas, a Igreja testemunha que o Reino de Deus permanece verdadeiro lugar confronto das sociedades humanas.
c) Finalmente, o diálogo com a cultura moderna.
Com Paulo VI e o Sínodo dos Bispos que inspirou a Exortação Evangelii Nuntiandi, de 1975, o encontro do Evangelho e Culturas vivas chegou a uma prioridade para as Igrejas. Essa tem sido também uma das preocupações de João Paulo II, para quem o diálogo das Igrejas com a cultura reveste uma importância capital.”
Estas reflexões de Arnaldo Pinho não podem deixar de provocar um profundo exame de consciência. Seguramente que muitas iniciativas revelam uma progressiva recepção do Concílio. Quem assistiu ao programa último Prós e Contras percebeu que a Igreja em Portugal tem dado passos m frente. Mas fica sempre a pergunta: não continuaremos nós a gastar demasiadas energias em função de uma re-evangelização, reprodutora de formas ultrapassadas, em vez de ousarmos uma nova evangelização, fruto de novo e fecundo encontro do Evangelho com realidades totalmente outras, como são as dos nossos dias?
Q.S.
