Dias positivos Conhecido por liderar o grupo rock mais popular do mundo, os U2, Bono tem-se destacado igualmente como activista do perdão da dívida dos países africanos. Em Portugal, os elementos dessa banda até foram condecorados pelo Presidente da República (tal como já havia acontecido em França e noutros países), a quando do concerto em Alvalade, em Agosto passado.
Mas agora gostava de destacar as convicções religiosas do líder dos U2. Já em tempos se escreveu sobre isso nas páginas do Correio do Vouga (“O rock e a graça contra a fome”, 29 de Maio de 2002). As canções deste grupo abundam em referências religiosas. Um dos discos do grupo chama-se “The Joshua Tree” (“A Árvore Jesus” – Jesus em hebraico). Num dos últimos, há canções com títulos tão sugestivos como “Graça” e “Elevação”. E o álbum mais recente, “How to dismantle an atomic bomb” (só por curiosidade: a bomba atómica a ser desmantelada é a situação conflituosa que Bono viveu com o seu pai, recentemente falecido, conforme explicou no livro que a seguir se refere), termina a canção “Yahweh”, que milhões de pessoas trauteiam sem provavelmente saberem que estão a pronunciar o nome de Deus em hebraico. Há quem fale da música dos U2 como “inspirada”, além de “inspiradora”.
Saiu em Portugal, há pouco tempo, a entrevista do jornalista francês Michka Assayas a Bono. Ao longo das 350 páginas, várias vezes a religião, a Bíblia, o Papa João Paulo II, a fé são referidos. E o que espanta, no meio da vacuidade que por vezes associamos ao mundo das estrelas pop, é a solidez das convicções do líder dos U2. Não são só frases dispersas como “A Igreja tem os seus problemas, mas quanto mais envelheço, mais conforto lá encontro”. São razões com princípio meio e fim, como as que desenvolve no cap. 11, “Adiciona eternidade a isso”, sobre a diferença entre Graça e Karma e a salvação de Jesus Cristo. Parte desse capítulo já circula pela Internet.
O que diz Bono? “A Graça desafia a razão e a lógica. O amor interrompe, se quiseres, as consequências das tuas acções, o que no meu caso é, na verdade, muito bom, porque eu fiz coisas muito estúpidas”. Perante isto, o entrevistador comenta: “Eu estaria interessado em ouvir isso”. E Bono acrescenta: “Isso é entre mim e Deus. Mas eu estaria em muito maus lençóis se o Karma [a lei de a cada má acção cometida recair outra sobre a pessoa] fosse o meu juiz final. Estaria numa grande m****… Isto não desculpa os meus erros, mas estou a apelar à Graça. Estou a apelar para que Jesus tenha levado os meus pecados para a Cruz, porque eu sei quem sou, e espero não ter de depender da minha própria religiosidade”.
“O filho de Deus que leva os pecados do mundo. Quem me dera acreditar nisso”, diz o entrevistador Michka Assayas. E Bono explica: “Mas eu adoro a ideia do Cordeiro Sacrificial. Adoro a ideia de que Deus diz: Olhem, seus cretinos, há resultados dependentes daquilo que somos, do egoísmo, e há a mortalidade como parte da vossa natureza muito pecadora e, vamos encará-lo, vocês não estão a viver uma grande vida, estão? As acções têm consequências”. O sentido da morte de Cristo é que Cristo levou os pecados do mundo, para que aquilo que nós aprontássemos não voltasse para nós, e para que a nossa natureza pecadora não nos faça colher a morte óbvia. É esse o sentido. Isto deve manter-nos humildes… Não é o nosso próprio bem que nos faz passar os portões do céu”.
Está explicada a diferença libertadora entre a Graça (de Cristo) e o Karma (dos astros, do destino, dos genes, das outras religiões, ou do que quer que seja). Mas havemos de volta às convicções do irlandês Bono. Ele coloca muito bem a questão da necessidade de uma decisão perante o “fenómeno” Jesus. (Michka Assayas, Bono por Bono. Os afluentes da Memória, ed. Ulisseia)
