O fim da vida

À luz do dia Saber que os cuidados paliativos começam a ser pensados à escala planetária é uma das boas notícias do dia. Numa época em que a lógica jornalística ainda se rege pelo estafado lema que nos diz good news are no news, é bom destacar as boas notícias.

Acredito profundamente que as boas notícias são sempre notícia e, por isso mesmo, motivo de interesse. Neste sentido, a criação de um Dia Mundial dos Cuidados Paliativos é uma excelente notícia, na medida em que nos obriga a reflectir sobre o que está em questão.

Agonizar no hospital e sofrer no fim da vida é um dos nossos maiores pavores. Sofrer sozinho, ficar longe de casa ou perder capacidades assusta-nos a todos. Enche-nos de angústia e medos que, infelizmente, são justificados, pois cada vez mais se morre no hospital, longe da família e dos amigos, nem sempre com a qualidade desejável.

Estas mortes assépticas são extraordinariamente dolorosas, mesmo quando já não existe sofrimento físico. A ausência das referências habituais, a distância de casa e o vazio emocional, que tantas vezes se instala à volta dos doentes terminais hospitalizados, cria uma solidão interior indizível que fragiliza e chega a doer mais do que a própria dor física.

Já escrevi algumas vezes sobre a importância vital dos cuidados paliativos e a XIS tem abordado recorrentemente este tema, mas acredito que nada do que se diga seja suficiente. Muito pelo contrário, nunca seremos capazes de avaliar o verdadeiro alcance dos cuidados paliativos, até ao dia em que nós próprios (ou alguém que nos é muito querido ou está muito próximo) precisemos deles.

É justamente na altura em que a vida fica por um fio que todos nos confrontamos fatalmente com a morte e é a partir desse momento — que pode prolongar-se por meses ou semanas — que os especialistas em cuidados paliativos fazem toda a diferença, pois têm preparação técnica e científica para aliviar as dores físicas e emocionais. Mais, estão treinados para lidar com os doentes e as suas famílias e sabem como devolver a uns e a outros a dignidade e o sentido da vida.

Um dos objectivos do Dia Mundial dos Cuidados Paliativos é que sejam considerados um direito fundamental do ser humano. Para isso é preciso que os governos sigam as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS) e incluam os cuidados paliativos nas suas políticas de saúde, disponibilizando recursos financeiros e humanos para programas e serviços especializados.

Todos temos direito ao controlo da dor e de outros sintomas incómodos e, uma vez que já existem métodos deficazes e acessíveis, devemos lutar para que sejam aplicados e constituam um direito fundamental independentemente do status social, da capacidade para pagar estes serviços, da idade, do sexo, da raça e do credo. Os cuidados paliativos devem estar disponíveis para todas as populações do mundo, incluindo os grupos mais vulneráveis como os presidiários, os trabalhadores do sexo e os toxicodependentes.

Em Março passado, foi assinada em Seul, na Coreia, uma declaração baseada na Declaração de Barcelona sobre os cuidados paliativos, feita há dez anos. Nesta espécie de ratificação internacional, foram estabelecidos os grandes princípios orientadores, entre os quais se destaca a necessidade de incluir os cuidados paliativos nos programas nacionais de combate ao cancro, no tratamento de outras doenças progressivas e graves e, ainda, nas estratégias de luta contra a SIDA.

Ficou ainda sublinhada a urgência de implementar políticas sustentadas e planos de acção concretos e de qualidade para todos os cidadãos e, ainda, a exigência de providenciar treino, apoio e supervisão aos cuidadores não profissionais. Ou seja, às famílias e a todos aqueles que estão à cabeceira dos doentes terminais.

Voltando ao início, ao capítulo das boas notícias, é bom saber que os cuidados paliativos são uma realidade cada vez mais acessível e eficaz e que, em Portugal, também se têm dado passos significativos para compreender os aspectos psicossociais e espirituais da doença crónica, do fim da vida e do morrer.