Conferência de Guilherme d’Oliveira Martins “Para compreender Portugal, o défice fundamental que é necessário entender é o da ciência, educação e cultura”, afirmou Guilherme d’Oliveira Martins, na noite de segunda-feira, na conferência de abertura da Semana da Arte do Centro Universitário Fé e Cultura
O presidente do Conselho Nacional de Cultura e do tribunal de Contas centrou a sua comunicação na importância da educação, pois a riqueza de uma país “não está nos recursos materiais, mas na capacidade de os utilizar, ou seja, as pessoas, o capital social ou humano”, disse. Nesse sentido, delineou três princípios da educação enquanto chave do desenvolvimento de um povo (o tema era: “Compreender Portugal, educar e preparar o futuro”) e cinco prioridades para essa mesma educação. Os princípios: fazer da educação tarefa permanente; assumir a aprendizagem (isto é, a capacidade de aprender), que é o que distingue uma sociedade desenvolvida da não-desenvolvida; e ligar conhecimento e compreensão. As prioridades da educação são conteúdos em que se deve investir de modo contínuo: Língua materna; Línguas estrangeiras – pelo menos duas e “quanto mais cedo se começar a aprender, melhor”; Matemática, porque enquanto as línguas diferem de país para país, os números são uma linguagem universal; Artes; e Ciências naturais e método científico.
Ensino secundário desadequado
Guilherme d’Oliveira Martins considera que há uma faixa da população escolar que merece uma atenção especial, a dos 15-18 anos, porque frequenta um ensino que foi concebido para ser ponte para o ensino universitário quando devia ser igualmente o fim de um percurso. E a prova está no ensino europeu, onde há 40% dos alunos com estas idades estão em cursos técnico-profissionais (11% em Portugal) e as idades de entrada no ensino superior anda pelos 20/21 anos. Os jovens europeus trabalham antes de entrar na universidade, diminuindo assim a probabilidade de escolherem um curso errado.
A Semana da Arte é uma iniciativa anual do CUFC que oferece conferências, ateliers e exposições. Para hoje, 16, está prevista a intervenção do presidente do Conselho Nacional de Educação, às 21h. O professor Júlio Pedrosa vai falar de “A cultura geral e o espírito crítico na comunidade”. Na quinta-feira, 17, Manuel Augusto Oliveira, da Associação dos Amigos da Ria e do Barco Moliceiro, fala das origens e histórias desta embarcação típica da Ria da Aveiro.
Noruega desenvolveu-se lendo a Bíblia
O atraso cultural e económico português várias vezes foi aflorado, mas Guilherme d’Oliveira Martins recusou-se a aceitar uma causa única que o explique. Pelo meio apontou um caso curioso. Em 1805, a Noruega era o país mais atrasado da Europa, com 85% de analfabetos, enquanto Portugal tinha 75%. No início do século XX, o país escandinavo tinha reduzido o analfabetismo para quase 0%, enquanto a percentagem portuguesa continuava igual. Tudo porque a Igreja Luterana da Noruega impôs uma lei que obrigava a que quem quisesse casar-se tinha de saber ler e escrever , a fim de ler a Bíblia aos seus filhos. A sociedade respondeu empenhando-se na alfabetização. Actualmente a Noruega é um dos países mais desenvolvidos. E já o era antes de encontrar petróleo no seu mar.
