Direitos Humanos Escrevo esta partilha no rescaldo da derrota da Paz. O voto do povo brasileiro, eliminando a hipótese de se abolir o comércio de armas no país, foi um revés na caminhada em direcção a um outro mundo sonhado.
Foi esse ambiente de desilusão que encontrei há poucos dias numa viagem que fiz a Brasília. O desencanto perpassava nos rostos de todos os participantes no Curso sobre Cultura da Paz e Direitos Humanos, promovido pela Comissão Brasileira Justiça e Paz.
De todos os cantos se ouvia a frustração de quem tinha acreditado num passo que, todos pensávamos, nos iria aproximar do Reino de Deus e… o povo recusou dar esse passo.
Enfim, esse curso veio na melhor altura, não só pelo ânimo que nos devolveu, mas principalmente pelos desafios que foram colocados a todas as Comissões Justiça e Paz: assumir radicalmente a não-violência e formar educadores e promotores de paz nas diversas regiões do Brasil.
O projecto é aliciante, tanto quanto é desafiante e ousado.
Porém, a necessidade de responder à(s) violência(s) que transforma(m) o Brasil num dos países mais violentos do mundo coloca-nos perante o imperativo de escolher um de entre três tipos de resposta a dar a essa violência: a passividade, a contra-violência ou a não-violência.
A postura da passividade é a mais fácil das respostas. Trata-se de encarar a violência e, no comodismo tão comum ao homem do século XXI, não fazer nada para terminar com ela. No dizer de Gandhi, a passividade é ainda pior do que a contra-violência. Esta segunda resposta consiste em agir usando meios violentos para combater a própria violência.
Em terceiro lugar, temos a não-violência activa, ou seja, a postura de lutar activamente contra todos os tipos de violência, mas recusando todos os meios que possam ser de alguma forma violentos. Quem vive a não-violência activa procura sempre maneiras de resolução não-violenta dos conflitos.
Segundo Gandhi, a não-violência é uma moeda com duas faces: Ahimsa e Satyagraha. Ahimsa consiste na recusa total e inequívoca da violência. Satyagraha, por seu lado, representa a força da verdade que permite, através das acções concretas, resistir a todo e qualquer tipo de violência.
Finalmente, a não-violência tem um caminho, o único, para se chegar até ela: a Paz. Amiúde se escuta uma frase, erradamente atribuída a Gandhi, “não há um caminho para a Paz, a Paz é o caminho”. A máxima é, na verdade, da autoria de Abraham J. Must. E ela encerra o que neste momento gostaria que ficasse no pensamento do leitor: Cristo é o Caminho e Ele nos dá a sua Paz – pensamento utópico o suficiente para continuarmos as nossas lutas no dia-a-dia e para nos levantarmos, mesmo quando perdemos uma batalha.
A utopia do Cristão é fazer acontecer Reino de Deus e praticar a não-violência é um passo fundamental para o Reino acontecer.
Educar para a Paz, por sua vez, é também uma utopia e, como as verdadeiras utopias, ela só pode ir acontecendo, de mansinho, a cada dia que passa, vivendo essa Paz a todos os momentos e em todos os lugares.
