França: os paradoxos da violência

Colaboração dos Leitores A destruição e violência, nos subúrbios de Paris e doutras cidades francesas, são puramente dantescas. Carros incendiados, moradores em estado de choque, as autoridades impotentes, no pano de fundo de uma sociedade que não consegue acreditar numa cena tão surreal.

Como se explica esta espécie de “entifada social”? O nosso olhar constata uma violência primitiva e irracional, em que o ácome presente é uma explosão social latente. Ficamos claramente convencidos de que se trata de um mal entranhado e não de algo epidérmico. A sociedade moderna admite um princípio de precaridade, onde ninguém tem a certeza de nada: emprego, casa, futuro, cultura, direitos adquiridos…

O que se passa em França tem que ver com uma imensa massa não inserida na sociedade. Aqui não cabe qualquer explicação de fundo racista, que, contudo, parece persistir em algumas franjas da sociedade francesa, adepta da solução violenta da questão. É claro que o modelo francês de integração não parece, à primeira vista, um paradigma a seguir. A compreensão do fenómeno social “sui generis” com que somos ali confrontados ajudará a compreender melhor: trata-se de gente nacional de uma espécie de “terra de ninguém”, uma vez que claramente os laços de pertença não existem quer quanto ao país de acolhimento quer quanto aos países de origem. Falência da escolaridade, problemas sociais, sociedades periféricas, a fome de abundância (em que o queimar automóveis seria espécie de exorcismo: “não consigo ter, ninguém terá!”). Notemos que estamos perante um fenómeno que transcende a imagem da favela brasileira, pois aqui claramente o sentimento de ser brasileiro não desapareceu. Todo este surrealismo coloca-nos a pergunta: delírio ou vingança inconsciente? Estamos, todavia, perante um fenómeno que não permite uma colagem ao “Maio de 68”, porque este foi obra de filósofos, estudantes, meninos privilegiados, letrados e cultos. Estes são a antítese de tudo isso; e como tal a sua violência parece arbitrária.

Este assunto tem duas cambiantes essenciais a considerar: 1º- O caso local francês; 2º – O barómetro social que a França está a representar, no seu parece que “dever histórico” de antecipar os problemas.

Quanto ao segundo aspecto, apenas compete dizer: estamos no caldeirão do modelo americano, no ácome de um capitalismo que tem contradições mas não deixa de ser o modelo menos mau de todos. Quanto ao primeiro, parece claro que a sociedade francesa não sansiona a solução violenta da questão, sendo certo todavia que não aceitará um paradigma social diferente do seu, porque isso repugnaria ao seu sentimento igualitário. A solução passará então por uma tentativa de reconciliação, promessas, interacção com os Avós, Pais e irmãos mais velhos, que sentirão esta violência como uma falência pessoal e terão vontade de evitar a vergonha que representa a barbárie dos seus próximos.

Para quem, como eu, viveu em França na situação de imigrante, qualquer que seja a solução do diferendo em causa, é preciso evidenciar um aspecto pouco salientado até hoje: há comunidades perfeitamente integra-das, como são a comunidade portuguesa ou ainda as do leste europeu. Diria, então, que o falhanço é não tanto do modelo de integração, mas da qualidade dos seus destinatários.

Um dado cultural está bem patente: algumas comunidades implicadas não acolhem os modelos ocidentais, onde o trabalho, o progresso, a responsabilidade pela sua subsistência e promoção pessoal e a livre concorrência em geral são valores chave. Sem podermos transfor-mar os nossos valores em paradigma universal, não podemos, contudo, permitir que eles sejam, sem mais, “queimados”. A comunhão nos valores universais garante a inserção e a promoção pessoal em todos os aspectos a qualquer imigrante.

A situação que se vive em França é, aliás, paradoxal: deveria ser considerado valor universal a solidariedade com os imigrantes, sejam eles de que origem forem. Tal foi o que aconteceu em França. Não podemos deixar de repudiar o tratamento que se dá aos imigrantes africanos a tentar entrar pela fronteira de Ceuta. O excesso de zelo do estado social francês, que elegeu como paradigma a protecção social máxima, tem também aqui culpas no cartório e padece do mesmo referido paradoxo. No meio da nuvem de fumos dos carros incendiados, vemos claramente que a França está a pagar por um excesso de misericórdia que inspirou este país a acolher tantos emigrantes. É inaceitável também a acção daqueles que, tendo sido recebidos com misericórdia, agora pagam com violência. A violência aqui representa uma traição e uma falta de memória histórica da referida misericórdia. A reclamar uma união forte de toda a sociedade, como coadjuvante da acção do Estado e destinada a fazer uma revolução cultural, que deverá incidir em todos aqueles que comungam de ideais racistas, convencendo-os dos benefícios da fraternidade universal, tão historicamente enraízada no ideário francês, mas também e sobretudo nos imigrantes em causa, que deverão caminhar na direcção de uma verdadeira cultura de mérito e de trabalho.

Já não é tempo de paliativos; e uma vez que tal ambiente é comum a todo o mundo ocidental, importa que nas sedes próprias (nomeadamente na sede das Comunidades Europeias) se equacionem os movimentos de aculturação e inculturação, que, sem ferir a dignidade pessoal do ser humano, são todavia uma clara contrapartida do benefício do acolhimento: ser acolhido é um benefício, com as inerentes responsabilidade da cidadania que, segundo defendemos, é um direito universal.

Daniel Loureiro (emigrante em França de 1975 a 1985)