Padre Jesuíta, Universitário, Classicista, Filósofo, Crítico Literário e Pedagogo D. Manuel Clemente, Eduardo Lourenço, Eduardo Prado Coelho, José Pacheco Pereira, Guilherme d’Oliveira Martins, João Bénard da Costa, Edgar Morin, Manuela Silva e o general Loureiro dos Santos são alguns dos nomes que vão intervir no congresso internacional dedicado ao padre jesuíta Manuel Antunes, nos dias 15, 16 e 17 de Dezembro, a propósito do vigésimo aniversário da sua morte. O congresso decorre em três locais, na Fundação Calouste Gulbenkian, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e na Sertã, de onde Manuel Antunes era natural, e está estruturado em grandes painéis temáticos que centraram a reflexão do jesuíta: Cultura e Civilização, Crítica Literária e Estética, Educação/Pedagogia/Ensino, Religião/Teologia/Espiritualidade, Política/Construção da Democracia, Filosofia e Ciência.
Manuel Antunes nasceu em 1918, na Sertã, e ingressou no seminário dos jesuítas, em Guimarães, em 1931. Fez a primeira profissão religiosa na Companhia de Jesus em 1938, licenciou-se em Filosofia (Braga) em 1943 e foi ordenado padre em 1949, antes de completar a licenciatura em Teologia (Granada, Espanha).
De 1965 a 1982 foi director da revista Brotéria (com breve interrupção de 72 a 75), tendo usado 124 pseudónimos para assinar artigos. “O recurso intensivo à pseudonímia pode ser explicado pela necessidade de fabricar aparência de diversificação autoral. quando precisava de escrever vários artigos num mesmo número da revista; e ainda como estratégia para iludir a censura do estado Novo, que averiguava mensalmente os conteúdos publicados”, lê-se num texto dos investigadores José Eduardo Franco e Luís Machado de Abreu (professor na Universidade de Aveiro), antigos alunos de Manuel Antunes (ver artigo em www.manuelantunes-sj.com).
Em 1957, Manuel Antunes foi convidado pelo professor Vitorino Nemésio para leccionar na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. “Nesta instituição universitária começou por ensinar História da Cultura Clássica e História da Civilização Romana. Mais tarde regeu também as cadeiras de Filosofia Antiga e Ontologia, além de ter orientado diversos seminários”, diz o referido texto na Internet.
Em 27 anos, terão passado pelas aulas de Manuel Antunes cerca de 15 mil alunos, entre os quais Sophia de Mello Breyner e Eduardo Prado Coelho. A poeta afirmou um dia que o “o mestre, grande amigo e exemplo humano” era “aberto a tudo quando aparecia de novo”. Já o crítico literário confessou, há dias, na sua coluna do jornal Público (01-12-05), que Manuel Antunes foi o seu “segundo mestre”, a par de Lindley Cintra, e que passava dias inteiros na Biblioteca Nacional, em Paris, apenas com “uma maçãzita que levara de casa”. Diz ainda Prado Coelho: “Era um homem extremamente escrupuloso. Quando o meu pai [Jacinto Prado Coelho] lhe emprestou um livro, ele telefonou a perguntar se podia ler as notas que o meu pai escrevera nas margens”.
“As várias gerações de alunos que formou muito apreciavam neste pedagogo brilhante a sua vastíssima cultura, o seu poder de síntese, a clareza e o vigor da exposição, a sua atitude modesta, acolhedora, afável e comunicativa”, afirmam J.E. Franco e L. M. de Abreu.
Manuel Antunes destacou-se como um dos mais brilhantes pensadores do século XX português.
A partir deste mês, com a reedição de “Repensar Portugal” (Ed. Multinova), e os primeiros dois (de doze) volumes de Obras Completas (Ed. da Fundação Calouste Gulbenkian) o seu contributo para a cultura e política portuguesas poderá ser devidamente apreciado.
J.P.F.
Frases soltas de Manuel Antunes
“Alguns prefeririam mesmo dizer despartidarizar. Não vamos tão longe. Em democracia, os partidos são necessários, porque exercem múltiplas funções, de outro modo dificilmente substituíveis. (…) Não é de estranhar que o público, em escala pouco recomendável, comece a descrer deles, a apontá-los como fautores dos nossos males, a descrevê-los como portadores, não da democracia, mas da mediocracia, a senti-los divorciados dos problemas reais daqueles que confiadamente elegeram (…), a olhar as suas estruturas como vias de carreirismo e oportunismo, subtil ou simplório. Daí a pensar que a sua existência é não só inútil mas prejudicial, a distância não é grande”.
in “Repensar Portugal”
“Começar por modificar os homens ou alterar as estruturas? Pergunta vã, muito semelhante à da prioridade do ovo ou da galinha. Em vez da disjuntiva, a conjuntiva. Homens e estruturas devem ir transformando-se numa interacção recíproca, persistente e lúcida, num processo que jamais vê o seu termo”.
Citado por Eduardo Prado Coelho
“Uma educação ou é total ou simplesmente não é. Uma educação ou tem em conta todas as aspirações do homem ou não passa de um logro”.
in “Educação e Sociedade”
“Que se pretende fazer do homem? É a esta pergunta que se propõe responder a filosofia da educação.(…) O homem tem necessidade de valores em que possa acreditar, de modelos que possa seguir. Quando esses valores e esses modelos faltam ou diminuem na sua incentividade, é o caos moral, a anarquia, a desorientação”.
in “Educação e Sociedade”
