O baptismo de Jesus e nosso baptismo (2ª parte)

O leitor pergunta Como é que Jesus, que não tinha pecados, pôde receber o baptismo de João, que era para perdão dos pecados? – foi basicamente esta a questão que começou a ser respondida na semana passada.

Os primeiros cristãos também sentiram a dificuldade e os Evangelhos dão disso reflexo. Mt 3,15 diz que Jesus se submeteu ao baptismo, com a oposição do Baptista (“Eu é que tenho necessidade de ser baptizado por ti, e Tu vens a mim?”), mas fê-lo para “cumprir toda a justiça”, isto é, para fazer a vontade de Deus. Já os Evangelhos de João e Lucas evitam dizer que Jesus foi baptizado pelo Baptista, porque Jesus não é um simples discípulo de João, mas “o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29). S. Paulo, por seu turno, nunca refere João Baptista, o último homem da Antiga Aliança.

Contudo, o próprio relato do baptismo de Jesus contém elementos que permitem entender o seu significado autêntico e que vão em dois sentidos: inauguração solene da missão de Jesus e protótipo do baptismo cristão. A inauguração é dada por três elementos: a pomba, símbolo do Espírito Santo e que expressa a identidade profética de Jesus; os céus rasgados, sinal de um tempo novo; e a voz vinda do Céu (“Este é o meu Filho muito amado…”), que aceita a missão de Jesus. Por outro lado, o baptismo de Jesus é que é o modelo do baptismo cristão, porque somos/fomos baptizados em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; e não em nome da remissão dos pecados, como baptizava o Baptista. O perdão dos pecados chega pelo baptismo cristão, mas como elemento secundário, porque o principal é a identificação daquele que é baptizado com a morte (mergulho nas águas / reclusão no sepulcro) e ressurreição (saída da águas / vida nova) de Jesus Cristo. Por tudo isto, hoje, na pastoral do baptismo, são mais sublinhados elementos como a configuração com Cristo, a filiação divina do baptizado e a sua inserção na comunidade dos crentes (que acontecem apenas uma vez) do que o perdão dos pecados (que é necessário ao longo da vida – e muitas vezes).

J.P.F.