Colaboração dos leitores Portugal está prestes a bater no fundo. São os técnicos economistas saídos da Universidade há 30 ou mais anos e os analistas políticos que o dizem.
Pela experiência de vida que tenho, incluindo política, também o afirmo com frontalidade e coragem. Se não arrepiamos caminho, Portugal tem à sua frente um futuro muito sombrio.
É necessária e urgente uma grande reforma. Uma reforma, em primeiro lugar, de eventualidades e de valores. Em segundo lugar, uma reforma de estruturas e de serviços no sector estatal e no sector privado.
O ambiente que se vive justifica plenamente que cite o poeta que, com uma quadra altamente significativa e oportuna, indica-nos o caminho a seguir.
“O filho do carpinteiro
foi um artista profundo
com os pregos e um madeiro
fez a reforma do mundo”.
Que melhor apelo, conselho e orientação política para salvar o país querem os nossos governantes, os nossos políticos e gestores empresariais?
Que melhor e mais oportuna norma de vida querem os nossos trabalhadores, dirigentes sindicais e o povo português em geral?
Um pai que para sustentar a família passou a vida inteira a trabalhar de sol a sol a fazer mesas e cadeiras, portas e janelas. Um filho que, durante trinta anos, não arredou pé a ajudar o pai para que não faltasse aos seus compromissos e não faltasse o pão em casa.
Olhando para o mundo que o rodeava, teve pena dos que passavam fome à sua volta, e esquecendo-se de si mesmo, sacrificou-se até ao fim, dando a sua própria vida para que não só a sua terra, mas também o mundo inteiro tivessem uma vida melhor.
Para isso bastou “dois pregos e um madeiro”. A reforma foi feita. Os homens é que não foram capazes de a continuar.
O que vemos em Portugal? Ninguém está disposto a sacrifícios. E ninguém mostra coragem (e porque não dizê-lo?) patriotismo para os pedir e exigir… Pelo contrário, consolidou-se a cultura dos direitos adquiridos da qual não fazem parte quaisquer deveres. O egoísmo estabeleceu-se. Vê-se até no tom misericordioso com que se fala dos 650 mil desempregados.
Mais, um Ministro chegou a afirmar há tempos que, neste andar, daqui a dez anos a Segurança Social entra em ruptura financeira, isto é, daqui a algum tempo, não há pensões para ninguém, se não forem tomadas medidas de sustentabilidade.
Mas não está certo que sejam praticamente só os funcionários públicos e os pensionistas a pagar a crise ou os mais sacrificados.
Face a tanta desgraça que atravessa o mundo que nos rodeia e, certamente, nos espera, o certo é que, se não seguirmos o exemplo do “carpinteiro, pai do artista” e o exemplo do próprio “artista”, isto já não vai lá sem suor e sem lágrimas, e já será muito bom se for sem sangue.
Francamente, Portugal não merecia esse futuro, mas para isso precisava de não ter tido este presente.
Como diz o historiador, e muito bem, nós hoje não somos descendentes dos portugueses que foram à Índia. Somos, sim, descendentes dos que cá ficaram.
Ai de nós, se não arrepiamos caminho…
Basílio de Oliveira
