O tema da Mensagem do Papa para a Quaresma é tão importante quanto surpreendente. As palavras de Santo Agostinho que o Pontífice cita bem podem considerar-se a síntese das reflexões que nos propõe: se “a justiça é a virtude que distribui a cada um o que é seu… não é justiça feita ao homem aquela que o subtrai ao verdadeiro Deus” (De Civitate Dei, XIX, 21).
Essa é a grande questão que atormenta e enrola as sociedades do nosso tempo. A justiça, zelosa de dar a cada um o que é seu, por causa da miopia que sofre sobre a visão da pessoa humana, pensa que lho dá com uma teia de leis externas, mas deixa o vazio que permite todas as perversões individualistas, a promiscuidade de interesses, a nebulosidade de argumentos, perpetuando e complexificando o caudal das injustiças – o vazio da ausência de Deus.
Esta visão atrofiada da pessoa, não permite ela mesma perceber-se como ser em relação – com Deus e, por virtude disso, porque Sua imagem e semelhança, com o outro. E, nessas circunstâncias, “a justiça distributiva não restitui ao ser humano todo o ‘suo’ que lhe é devido – como diz Bento XVI.
Esta perspectiva truncada da relação impede equilibrar-se a tensão entre a afirmação da identidade pessoal e os deveres da mesma relação. As leis externas não transformam o íntimo, para despertar a verdadeira identidade e o reconhecimento de que, apesar da abertura existencial ao “fluxo livre da partilha”, o egoísmo, consequência do pecado, leva o homem a “dobrar-se sobre si mesmo, a afirmar-se acima e contra os outros”.
Só a fé abre a este horizonte total da pessoa humana. Iluminados por ela, percebemos que a relação de Deus connosco – amor total, universal e incondicional – projecta a nossa relação com o próximo como expressão da nossa resposta ao mesmo Deus. É nessa luz que perceberemos a necessidade de um profundo ‘êxodo’. “Para entrar na justiça é portanto necessário sair daquela auto-suficiência, daquele estado profundo de fecho, que é a própria origem da injustiça” – continua o Santo Padre.
“O anúncio cristão responde positivamente à sede de justiça do homem”. O tempo da Quaresma, pelos exercícios que nos propõe – da interiorização, da sobriedade, da partilha -, é tempo oportuno para nos abrirmos à presença de Deus na nossa vida, que fará brilhar sobre nós a sabedoria da justiça divina, feita caridade e dom sem reservas.
