Em cima da Linha – (29 de Janeiro, Dia Mundial dos Leprosos) Ainda há cerca de15 milhões de seres humanos, em estado desumano. É verdade! São os leprosos. E a lepra, esta lepra, tem cura. Embora, em Portugal, ainda haja alguns leprosos, pode dizer-se que o problema está ultrapassado, prevendo-se, a breve trecho, a transformação do Hospital da Tocha. Os doentes que ainda restam poderão ser controlados pelas unidades de saúde locais. Por isso, o peditório feito nas escolas, nas paróquias e nos locais públicos não se destina a Portugal, mas tão-somente aos países de África e Ásia.
Se, em África, o problema não está solucionado, isso deve-se aos níveis baixíssimos de higiene e às condições muito precárias de assistência médica e medicamentosa.
Os Missionários Combonianos, a Associação Portuguesa dos Amigos de Raoul Follereau e outras instituições têm tido em suas mãos esta ingente tarefa de ajudar a acabar com a situação, relativamente fácil de resolver com medicamentos, mas que pressupõe o difícil trabalho de criar condições que impeçam o desenvolvimento da doença. Raoul Follereau, incansável apóstolo dos leprosos, não deixou de afirmar bem alto que o nosso mundo está cheio de outra lepra: as desigualdades sociais, a desatenção permanente aos mais necessitados, a fome, a injusta distribuição das riquezas, os gastos sem medida em armas de guerra, a miséria real de dois terços da população mundial a viver em condições infra-humanas. Os homens, fechando os olhos a estas realidades, estão a deixar-se contagiar por outra lepra bem mais perigosa que a lepra do corpo, uma vez que destrói muitos mais seres humanos que a própria doença física. Esta é a lepra verdadeiramente perigosa: a lepra do egoísmo, dos interesses dos mais fortes e mais ricos, que continua a explorar a pobreza dos habitantes de países ricos em recursos naturais. Mas esta riqueza natural de nada lhes serve. Os poderosos controlam a situação dos mais pobres, apesar de, bem alto, fazerem a proclamação dos Direitos Humanos. Os direitos humanos que parecem ser monopólio somente de alguns!
São, pois, estes leprosos os donos deste mundo, e destes ninguém tem medo; ninguém se preocupa com o contágio sempre crescente e dominador desta “doença”. Pelo contrário, nota-se até um certo prazer e preocupação em se deixar contagiar por esta lepra. Os outros, esses a quem a sociedade considera como leprosos, como asquerosos, há que marginalizá-los, isolá-los, retirá-los do meio desta sociedade “civilizada”. Eles são as crianças indesejadas e incómodas, os velhinhos rabugentos e doentes, as mães solteiras desprezadas, os apanhados pelas malhas do vício, da droga, do álcool e da prostituição, os deficientes físicos ou mentais, os desempregados e ciganos, os delinquentes e outros, todos fruto maduro desta terrível lepra que afecta profundamente os que se presumem sãos.
Decretar a morte de inocentes, mesmo com ares de legalidade, abrir as portas à guerra em nome do interesse dos “grandes”, empurrar os idosos para fora do seu espaço socio-afectivo, destruir vidas humanas indefesas, permitir que impunemente se mande alguém para o outro mundo… é lepra altamente contagiosa. Cuidado com ela, porque o contágio é fácil!
Não serão estes sintomas claros de uma doença que apodrece este mundo naquilo que ele tem de mais sagrado? Aquilo que se deseja com a aprovação da lei do aborto não terá nada a ver com isto?
Por isso, atrevo-me a afirmar: Há 15 milhões de leprosos, doentes do corpo que vão apodrecendo vivos e morrem, e há milhões e milhões de leprosos de outro tipo: os que têm o corpo são, e, por isso, não morrem, mas já estão mortos, porque têm a alma completamente podre.
É neste terreno fecundo que certos ideólogos habilidosos, às claras ou às escondidas, lançam as sementes que criam as condições para um crescimento descontrolado das inumeráveis podridões humanas, educativas, sociais e afectivas, do nosso mundo.
E esta lepra só terá cura quando seriamente todos os seres humanos se empenharem na promoção dos verdadeiros valores e se tornem realmente capazes de respeitar a dignidade dos outros, para que todos, absolutamente todos, vejam respeitada a sua dignidade em toda a parte e em todas as circunstâncias!
Por isso, não se deixe contagiar pelas lepras que corrompem o mais profundo de si próprio!
