O inesperado, por todos, incluindo os próprios militantes, aconteceu: um movimento radical, que se reclama promotor de mais de quinhentos atentados, com milhares de mortos e feridos, saltou para a ribalta dos eleitos em sufrágio popular. É um facto: por via eleitoral, o Hamas é poder na Palestina!
A miséria imerecida, o massacre das injustiças continuadas, a corrupção daqueles que prometem paraísos… revolvem sentimentos profundos, consolidam princípios e convicções, que podem irromper, abruptamente, em lavas sociais avassaladoras, traduzidas em resultados eleitorais imprevisíveis. Os palestinos, descontentes com as suas miseráveis condições de vida, com 65% da população a viver abaixo do limiar da pobreza, sonharam com uma sociedade diferente… e desafiaram quem lha possa proporcionar.
Recentemente, na América do Sul, vários povos optaram também por cores políticas que lhes oferecessem perspectivas diferentes. A braços com graves crises sociais e económicas, as pessoas procuram sinais de uma vida mais digna, não apenas pelas condições materiais, mas por todo um conjunto de factores que lhes permitam redescobrir e reassumir a sua dignidade.
É evidente que não cabe à Igreja organizar o social de modo a superar estas situações degradantes e explosivas. Mas é sua missão anunciar a Boa Nova, que restitui à pessoa humana a consciência do seu valor e da sua essência de ser-em-relação, que ilumina as práticas sociais. Sem estas incidências comportamentais, é inócuo o anúncio do Evangelho.
A civilização ocidental percorre caminhos que, em nome de sagrados princípios de liberdade, esquecem a diversidade de horizontes culturais e religiosos. Olhando para o seu umbigo, fascinada pelos êxitos do progresso, atropela os sentimentos mais íntimos das pessoas e dos povos, acirrando fundamentalismos de consequências imprevisíveis. Herdeira de um falso endeusamento da razão, diverte-se ridicularizando uma vertente essencial da vida do homem – o religioso.
É claro que a liberdade de expressão é um bem precioso. Mas é precisamente na teia das relações pessoais, e também civilizacionais, que se entrecruzam os direitos e deveres, as liberdades individuais, cujos limites são a realização própria cruzada com o benefício dos outros. Sempre que se não respeitam os fundamentos da dignidade pessoal e da identidade cultural corre-se o risco de atear incêndios cuja extensão e prejuízos não se podem calcular. Também aqui, a luz do Evangelho pode alicerçar convicções e induzir atitudes preventivas e curativas.
