Cristãos no mundo do trabalho (III)

Revisitar o Sínodo Diocesano Foi sensacional: o homem mais rico do Mundo disse aos seus ouvintes, alunos de escolas básicas e secundárias, que não escolhessem o seu futuro em função do dinheiro! Mesmo assim, não foram, das suas palavras, as mais publicitadas.

Outras “autoridades”, com maior credibilidade moral, há muito que nos dizem o mesmo: “Mediante o trabalho, o homem não somente transforma a natureza, adaptando-a às suas próprias necessidades, mas realiza-se também a si mesmo como homem e até, em certo modo, «se trona mais homem»” – LE 9. Só que o vício do lucro, a colonização da educação pela competitividade, o fascínio do bem estar material, pervertem as escolhas, distorcem os ideais, fabricam massas de inadaptados e inúteis.

“Pelo trabalho, a pessoa humana aprende muitas coisas, desenvolve as suas capacidades, eleva-se acima de si mesma, estabelece comunhão com os outros e encaminha a criação e os seus bens para o plano de Deus. Consequentemente, o trabalho deve definir-se pelas aptidões, capacidades e gostos de cada um e pelas necessidades da comunidade, tendo em conta as exigências do projecto de Deus, em favor de todos os homens” – II Sínodo de Aveiro.

Quando se fala de orientação vocacional, em meio educativo, que vectores são consi-derados para orientar aqueles que estão a abrir as janelas do seu futuro? Onde predomina a lógica de capacitação para “enfrentar o mercado de trabalho”, ele próprio submetido a inconfessas intenções lucrativas, que lugar para avaliar as aptidões dos formandos, o seu gosto profundo – que realize, em vez de iludir – as reais necessidades da comunidade?…

“A pessoa é sempre a referência fundamental de toda a actividade humana, pois esta dela depende e a ela se ordena” – II Sínodo de Aveiro (Cf. GS 35). Mas se a pessoa é perversamente concebida como uma peça da máquina produtiva, ao serviço de um mesquinho horizonte temporal, construtor de uma sociedade sem alma, que valores sobrarão para definir uma orientação vocacional?… Testes psicotécnicos, áreas de projecto, são modos e espaços para descobrir as riquezas pessoais e as encaminhar para uma integração social que dê felicidade e crie harmonia?… O que é a orientação profissional?…

Sem equacionar estes problemas, poderemos continuar a investir caudais de recursos na educação, multiplicaremos reformas, sem recuperar os insucessos escolares, sem elevar o nível educativo dos portugueses, sem relançar o gosto de construir uma nação, de activar uma cidadania portuguesa, europeia e mundial. Continuaremos a sentir a frustração de perder o nosso tempo e desbaratar as nossas riquezas.

Querubim Silva