Excluir ou acolher em nome de Deus?

À Luz da Palavra – VI Domingo do Tempo Comum – Ano B A liturgia deste domingo revela-nos o verdadeiro rosto do nosso Deus, na pessoa de Jesus. É um Deus que se compadece da miséria humana e que nos “toca” com ternura, bondade e amor, para nos libertar e nos associar à sua família. Não exclui ninguém e reprova todos os sistemas de discriminação, mesmo que, porventura, sejam construídos em seu nome.

A primeira leitura fala-nos de uma antiga lei, relativamente aos procedimentos a ter com os leprosos, e abre-nos o coração à novidade radical da prática de Jesus. Esta lei choca-nos, pela sua desumanidade face aos doentes de lepra, que, segundo ela, deviam ser enviados para fora do acampamento e entregues à sua triste sorte. Se, por um lado, podemos perceber nesta lei que se podia tratar de uma regra de saúde pública, por outro lado, inquieta-nos perceber a imagem deturpada de Deus, que as pessoas são capazes de inventar, segundo a lógica dos seus mecanismos de discriminação e de rejeição, em nome do próprio Deus. O texto denuncia esta atitude e convida-nos a repensar os nossos comportamentos face aos nossos irmãos e irmãs. Será que os meus preconceitos, a minha obsessão pela lei e pelo politicamente correcto estão a criar marginalização e exclusão dos nossos irmãos e irmãs?

O evangelho narra-nos a atitude de Jesus para com um leproso, exactamente ao inverso do que a lei prescrevia. É uma atitude de proximidade, de solidariedade, de aceitação. Ele não está preocupado com o que é política ou religiosamente correcto, ou com a “impureza” da pessoa, ou com o perigo que ela representa para a saúde pública. Jesus apenas vê no leproso um irmão que Deus ama e a quem é preciso estender a mão com amor. Neste seu gesto, revela-nos um Deus cheio de amor, de bondade e de ternura, que se faz pessoa e que desce ao encontro dos seus filhos e filhas, que lhes apresenta propostas de vida nova e que os convida a integrar a sua família. Um Deus que não exclui ninguém e que não aceita que, em seu nome, se inventem sistemas de discriminação ou de marginalização dos irmãos e irmãs. É este Deus, revelado em Jesus Cristo, que somos convidados a descobrir, a amar, a testemunhar no mundo.

Procuro integrar e acolher os estrangeiros, os marginais, os pecadores, os “diferentes” ou colaboro com os mecanismos de exclusão e de discriminação?

A segunda leitura convida-nos a dar prioridade à glória de Deus e ao serviço dos irmãos e irmãs. Neste texto, Paulo deixa claro que, para os que seguem Jesus, o amor é o valor absoluto, ao qual tudo deve ser submetido e que, em certas circunstâncias, podem ser convidados a renunciar aos próprios direitos, à própria liberdade, aos próprios projectos, quando o amor ou o bem dos irmãos e irmãs, assim o exigirem. O supremo exemplo há-de ser o de Cristo, que viveu na obediência incondicional aos projectos do Pai e fez da sua vida um dom de amor, ao serviço da libertação das pessoas. Como encaro os meus direitos? Sujeito-os ao amor para com Deus e para com o próximo, ou defendo-os acima de tudo, como um valor absoluto?

Leituras do Domingo VI do Tempo Comum – Ano B: Lv 13,1-2.44-46; Sl 32 (31), 1-2.5.7.11; 1 Cor 10,31–11,1; Mc 1,40-45

Deolinda Serralheiro