Livro É o livro mais estimulante para ter um panorama da Igreja Católica na actualidade. Na contracapa apresentam-se algumas perguntas que podem levar a pensar que se trata de um repositório de reivindicações lançadas ao Sumo Pontífice: “Terá o Papa de continuar a governar sozinho a Igreja? Que fazer perante o número crescente de crentes que não frequentam a igreja? Quando verão as mulheres respeitados os seus direitos na Igreja? Como responder à homossexualidade, à sida, á pedofilia? Pode e deve a fé conviver com a ciência?”
As questões acima referidas não são reivindicações. Mas sintetizam algumas das áreas abordadas nos ensaios escritos pelas 16 personalidades, que sugerem linhas de acção.
Um exemplo. Alexandre Castro Caldas, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e director do Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica Portuguesa, aborda o velho e sempre actual confronto entre Ciência e Teologia. “Hoje não é a revolução dos astros, nem a descoberta de novos continentes aquilo que nos sobressalta, mas sim os resultados de investigações de maior minúcia e complexidade que diaria-mente emergem do labor científico de uma comunidade sempre em crescimento no mundo” e que levam a interrogações como “o que é afinal a vida e o que é a individualidade”, quando podemos recorrer a material biológico de outras espécies, ao transplante de órgãos (e mesmo de algo tão pessoal como o rosto), à “fabricação de tecidos da multiplicação celular resultante de processos semelhantes aos da geração de seres humanos”.
No final, o desafio surge assim: “De todas as questões do desenvolvimento científico que se podem enumerar como merecedoras de um olhar atento deve salientar-se a necessidade de construção, no interior da própria Igreja, de interlocutores com capacidade crítica. A Igreja deve acompanhar o desenvolvimento e vigiar com cautela os comentários e opiniões dela emanadas, pois são estas muitas vezes mal informadas e causadoras de males difíceis de sarar”.
Se o Pe Arménio Costa, falecido em 1997, dizia aos jovens universitários que não deviam ficar na quarta classe em cultura religiosa, se quisessem alcançar a harmonia fé/cultura, agora é Castro Caldas que desafia a Igreja: os seus agentes têm de ter cultura científica para serem parceiros de diálogo credíveis.
Um livro para ir lendo.
Desafios à Igreja de Bento XVI
16 personalidades portuguesas reflectem sobre o Futuro da Igreja
Casa das Letras
218 páginas
16 personalidades portuguesas, 16 áreas
A. Gomes Canotilho – Direitos Humanos
Adriano Moreira – Geopolítica
Guilherme de Oliveira Martins – Política
António Vitorino – Europa
João Duque – Fé e autonomia
João Maria André – Multiculturalismo
P. Peter Stilwell – Religiões
Alexandre Castro Caldas – Ciências
Clara Pinto Correia – Bioética
Teresa Martinho Toldy – Mulheres
Rui Coelho – Sexualidades
Manuel Villas-Boas – Comunicação social
Dimas de Almeida – Ecumenismo cristão
D. Januário Torgal Ferreira – Descentalização
Maria Julieta Mendes Dias – Religiosos
Fr Bento Domingues – Religiosidades
