1. Fazem parte dos verbos fundamentais da nossa existência. Andam de mãos dadas e de pés atados: o ser e o ter. Às vezes sós, muitas vezes acompanhados do saber, do fazer, do dar, do amar.
O nosso viver confronta-se invariavelmente entre a liberdade de se ser, a necessidade de se ter, a responsabilidade de se dar, a capacidade de se fazer, a exigência de se saber, o impulso de se amar.
Mas, num tempo impulsionado cada vez mais pelas tecnologias poderosas e pela obsessão da circunstância, é entre o ser e o ter que nos vemos constantemente desafiados.
É de tal modo assim, que na linguagem corrente nos deixamos aliciar pela hegemonia do ter, mesmo se com isso apenas estamos a ser.
Usa-se e abusa-se do ter, para se expressar uma acção, um movimento, um processo, um estado de alma até.
Já não sói dizer-se “penso”, mas “tenho uma ideia”, “quero” mas “tenho vontade”; ou um “tenho um desejo”, quando nos bastaria tão simplesmente a conjugação do verbo desejar. E, não raro, até nos damos conta de que, em vez de “sermos”, dizemos que “temos uma vida”…
Este tipo de linguagem denuncia a supremacia quase inconsciente e perigosamente alienante do ter sobre o ser, no nosso quotidiano.
Até os problemas que nos consomem em cada dia já não são do domínio do ser mas do ter. Por isso, dizemos “Eu tenho um problema” o que significa que transformamos a percepção do problema em qualquer coisa que passamos a possuir: o próprio problema!… E este vinga-se passando de possuído a possuidor.
2. Na vida, começa-se por se ser antes de ter. O Verbo antes da verba. Na morte, deixa de se ser, ainda que se possa ter. Porém, o ter não dá eternidade, mesmo que por via testamentária ou sucessória. Mas o ser pode ser duradouro, por via consanguínea ou cromossomática.
Como escrevia Vergílio Ferreira, “é-se por dentro; por fora, está-se”. O ser ilumina-se por sinais interiores, enquanto o ter exibe sinais exteriores. Por isso, a riqueza está no ser, ainda que continuemos a medir pelo ter aquilo que não somos capazes de avaliar pelo ser.
Ao ser está associada a utopia. Ao ter, a ambição.
Ao ser está associado o reconhecimento. Ao ter, o sucesso e o fracasso.
Por isso, no ser se vive e no ter se ganha e se perde.
O ser congrega na diferença. O ter desagrega pela soma.
O ser desdobra-se através do livro da vida. O ter pressupõe o livro de cheques.
O ser exige o ser melhor, como princípio. O ter exige o ter mais, como meta.
O ser é a parte imersa no iceberg. O ter é a parte emersa.
O ser é um caminho. O ter é uma paragem.
O ser aperfeiçoa-se na partilha, na autenticidade, na doação. O ter consome-se no individualismo, no cinismo, no consumismo.
Ao contrário do ter, o ser não precisa de euros para se mensurar, apesar da desvalorização dos recursos não monetarizáveis, como a sabedoria, a generosidade, a disponibilidade, o bom senso, a persistência, a paciência, a experiência.
O ser e o ter, porém, não são inimigos ou incompatíveis. A convergência do ser e do ter é a base de ligação entre o imperativo de se ser e a liberdade de se ter.
Por isso, o espaço privilegiado de sinfonia entre o ser e o ter é a família. E um espaço decisivo de sintonia entre o ser e o ter pode e deve ser a empresa. Pela ética, pelo respeito, pela responsabilidade social.
E até (ou sobretudo) na religião, ser-se em fé é mais profundo e verdadeiro do que ter-se fé. Por isso, o deserto como símbolo da libertação e o Sermão da Montanha como renúncia à estrutura do ter. E a vida para além da morte, em que o ser se torna eterno e o ter se transforma em poeira.
