Comissão Diocesana Justiça e Paz promoveu debate “É aceitável que haja tanto desemprego?” A resposta de Manuela Silva à pergunta que ela própria formulou é claramente “não, não é aceitável”, numa altura em que os dados apontam para quase meio milhão de portugueses sem emprego.
Falando numa sessão sobre sociedade e criação de emprego, no último sábado, a presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz alertou para realidades escondidas pelos números oficiais do desemprego e defendeu uma acção alargada para combater este drama social. Para além dos desempregados que estão inscritos nos centros de emprego, existem milhares de casos de sub-emprego, emprego em tempo parcial, “inactivos disponíveis para trabalhar, mas que não procuram”, “inactivos que já desistiram de procurar” e pessoas que estão em formação profissional mas que, na realidade, não têm trabalho garantido.
A situação é dramática, mas não deve provocar resignação. Manuela Silva defendeu uma actuação por parte do Estado, sobre os agentes económicos, ao nível da legislação, incentivando a formação profissional dos trabalhadores e dificultando os despedimentos. Neste processo, a sociedade civil não deve ficar de fora. “Num mundo globalizado sem regras nem respeito pelos direitos humanos, a sociedade civil pode obrigar à necessidade de regulação do mercado global ou levar as multinacionais à adopção de códigos ética e de conduta, através de grupos de pressão, como as associações de consumidores “, disse Manuela Silva.
Ideia que a economista deixou bem vincada foi a da criação de serviços pelas comunidades próximas das pessoas, como é o caso das paróquias. “Com o seu sentido de proximidade, devem ser as primeiras a organizarem-se para dar resposta a necessidades das pessoas. Se eu preciso de um electricista, em vez de pagar dez euros a um que demora imenso tempo a vir para mudar uma lâmpada, porque não haver uma empresa de serviços domiciliários que faça o mesmo?”, questionou Manuela Silva, em declarações ao Correio do Vouga. A presidente da CNJP não sugere que as paróquias prestem esses serviços, mas sim que, com os seus membros mais activos, promovam a criação de empresas de serviços domiciliários de cariz social, um sector de actividade em crescimento devido ao envelhecimento da população.
Formar para o empreendorismo
A sessão, que decorreu no Centro Universitário Fé e Cultura, promovida pela Comissão Diocesana Justiça e Paz, além de Manuela Silva, contou com Paulo Mano, empresário, apresentado pelo director do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), António Marques, como caso de boas práticas na criação de emprego. Paulo Mano, com o apoio do IEFP, criou uma empresa no ramo automóvel que tem 11 colaboradores e um movimento de 3 milhões de euros por ano. Segundo o empresário, a legislação laboral devia ser mais flexível, ao contrário do que havia afirmado Manuela Silva. Paulo Mano considera que, devido à rigidez das leis laborais, os empresários sentem-se reticentes a contratar alguém, quando têm um trabalho temporário para oferecer.
Joaquim Borges Gouveia, presidente do Conselho Directivo do Departamento de Ecomonia e Gestão da Universidade de Aveiro, considera que o “Estado português se demitiu da redistribuição de riqueza”, contrariamente ao que acontece na Holanda, Aústria e Dinamarca, países de dimensão semelhante a Portugal, pelo que essa responsabilidade tem de ser assumida pelas famílias, através da educação. O problema é que “a escola devia ser boa para os mais desfavorecidos”, mas não é.
O professor da UA partilhou, por fim, sobre um projecto de criação de empresas pelos jovens universitários “como forma de dar um contributo para aquilo que é hoje o flagelo da sociedade moderna”. O projecto assenta no desenvolvimento sustentável, o que implica uma visão integrada da área económica, social e ambiental, e incentiva a criação de novas actividades, produtos e serviços. Trata-se de contribuir para o “reforço da responsabilidade dos empreendedores” e da própria “missão universitária”, escreveu o professor numa folha distribuída aos participantes. O ensino deve formar mais do que bons empregados. Deve formar bons empreendedores.
