Pe Francisco Melo, recém-chegado de Timor O Pe Francisco José Rodrigues Melo, 38 anos, pároco de Ribeira de Fráguas e Vale Maior, paróquias do concelho de Albergaria-a-Velha, acabou de regressar de Timor-Leste. No Seminário Maior de Díli, de Março a Maio, ensinou Teologia, como já havia feito em 2002. O Correio do Vouga conversou com este sacerdote sobre o seu trabalho em Timor e a instabilidade que se vive na primeira nação do séc. XXI.
Foi a segunda vez que esteve em Timor.
Sim. Estive dois meses em 2002 e, este ano, de 1 de Março a 28 de Maio. Nestes três meses, que correspondem a um semestre lectivo, ensinei Eclesiologia, Ecumenisno, Teologia Fundamental e Sacramento do Matrimónio, no Seminário Maior de Díli.
Teve muitos alunos?
O Seminário Maior dura seis anos e é frequentado por 54 alunos. O quinto ano é passado nas paróquias, em trabalho pastoral. Dei aulas ao 2º, 3º e 6º ano, que tinham respectivamente 5, 11 e 15 alunos. A equipa do Seminário é constituída pelo Reitor, o prefeito da disciplina, o prefeito de estudos (um padre belga, de 63 anos, que tinha estado no Brasil), o ecónomo e um padre japonês (jesuíta, de 68 anos, que passou igualmente pelo Brasil).
Além do ensino, esteve em contacto com as comunidades timorenses?
Ao domingo, celebrava na comunidade de Suritmas, perto do Seminário, que fica em Fatumeta.
Como surgiu a ideia de trabalhar em Timor?
Em Timor sempre houve um Seminário Menor. Após a independência, os bispos timorenses decidiram abrir um Seminário Maior. Havia na altura uma certa relação com a Universidade Católica Portuguesa (UCP). Ora, um dia li uma entrevista de D. Carlos [Ximenes Belo] em que o jornalista lhe perguntava o que é que ele mais precisava para Timor. E ele respondeu: professores para o Seminário. Falei então com o D. António [Bispo de Aveiro], que contactou a UCP. Em 2002, fui pela UCP. Agora, foi o prefeito de estudos [padre do Seminário Maior responsável pela parte académica] que me contactou. Tinha-lhe dito que ficasse à vontade para me contactar. Têm professores de Direito Canónico, Filosofia, Bíblia, mas há algumas lacunas em Dogmática.
Põe a hipótese de lá voltar?
Penso que já não vai ser preciso. Em 2007/8 chegam os professores que estão a estudar Dogmática em Roma.
Como são os alunos seminaristas timorenses?
Genericamente, inteligentes. Mas, com poucas excepções, têm muitas dificuldades na língua portuguesa. O português não é uma língua comum. Falam tetum, embora também haja quem não fale tetum. Por outro lado, os seminaristas timorenses são muito mais espirituais do que nós. Têm muito o sentido da espiritualidade, da oração e da meditação. E a isso dedicam mais tempo. Como estamos num país que é Terceiro Mundo, pobre, com muitas dificuldades, podemos imaginar o que significa andar no Seminário.
O que significa?
O seminário é lugar de promoção social. Ser padre é ter um estatuto social muito elevado. É o topo da hierarquia social. Basta ver o nome com que o povo trata os padres: Amo. Amo era o senhor feudal, o senhor dos escravos no Brasil, por exemplo. “Amo Padre”, “Amo Bispo”, “Amo Liurai”. Liurai é o rei tribal. Em termos humanos, é uma sociedade profundamente hierarquizada. A igreja e os padres fazem parte desta estrutura. Os seminaristas do Seminário Maior são frateres. É um título que já têm e que lhes dá estatuto.
Como é ensinar no Extremo Oriente uma Teologia que nasceu na Europa Ocidental?
É um problema. Sente-se em alguns grupos de Timor que tudo o que é do Ocidente é bom e o que é Oriental é mau. Isto cria alguns contratempos.
A nossa Teologia é muito mais racionalizada. Temos uma base racional de explicação. Há sempre um porquê para as coisas. Para eles, as explicações são muito mais simbólicas. Funciona à volta do símbolo. Por isso, a racio-nalização é muito difícil, com a agravante de que a base filosófica deles é profundamente pobre.
Falamos de “Igreja-Mistério” ou “essência da Igreja”… são conceitos difíceis de entender. Há ainda o problema da linguagem. O tetum é uma língua muito pobre. Não tem a palavra “ser”. Como é que se dá filosofia sem as palavras “ser” e “ente”, conceitos fundamentais da Filosofia Ocidental? “Natureza”, “pessoa”… são tudo palavras que eles não têm. A linguagem permite-nos pensar e estruturar o pensamento. A falta de termos dificulta o raciocínio.
Exigiu da sua parte um grande esforço…
Sim, um esforço de inculturação. Uma das coisas que fizemos foi estudar os ritos tradicionais de matrimónio de cada região timorense. Tentamos ver quais são os gestos e símbolos que se podem aproveitar para o matrimónio cristão. Está previsto, no ritual católico, que os costumes dos povos, desde que estejam de acordo com a essência do sacramento, possam ser aproveitados.
Na Teologia Fundamental [sector da teologia que se ocupa com os fundamentos da fé] não foi muito fácil fazer a adaptação. A Eclesiologia [disciplina da Teologia que aborda o ser da Igreja] é uma disciplina fascinante para dar em Timor.
Porquê?
Para desmontar o conceito que se tem de igreja: hierárquica e institucional. A descoberta do que é a Igreja, povo de Deus, é fascinante. Estamos num contexto em que a Igreja é profundamente hierarquizada. O padre faz tudo, é senhor de tudo. Sem o padre não se pode fazer nada. Há uma grande distância entre o leigo e o padre. Basta ver que, no Seminário, os padres comem à parte dos seminaristas. E comem melhor. O institucional é muito valorizado. Claro que o papel da Igreja é muito importante. A Igreja é que educa, fundamentalmente. As irmãs religiosas têm um papel preponderante. Grande parte das instituições educativas de Timor é da Igreja. Muitas das de saúde, igualmente. E o mesmo se passa em termos sociais.
Quando pegamos no Concílio Vaticano II e dizemos que a “Igreja é o Povo de Deus” e começamos por ali a baixo a desvendar a identidade da Igreja, temos de caminhar muito para entender que não é fundamentalmente hierarquia.
O que pode fazer a nossa diocese – ou a Igreja portuguesa – por Timor?
A maior ajuda que podemos dar à Igreja timorense é uma colaboração na formação dos seminaristas, aceitando-os para estágios pastorais. No próximo ano, as paróquias de Vale Maior e Ribeira de Fráguas vão receber o seminarista timorense João do Rosário.
