“Timor tem dificuldades de língua que vão demorar anos a resolver”

Pe Francisco Melo, sobre a instabilidade vivida em Timor Como observou a instabilidade em Timor, nos últimos dois meses?

Antes de falar da instabilidade, é importante perceber que Timor tem uma dificuldade de base que vai demorar muitos anos a superar: a língua. Não se constrói um povo e uma nação, se não se tem unidade de língua. Há países que têm várias línguas. Mas tem de haver algo que una aquele povo, que crie uma certa identidade. A única identidade de Timor reside no passado comum de terem pertencido a Portugal e depois à Indonésia. Para além disso, não há grande unidade. Os meios de comunicação quase não existem. Timor é constituído por 13 distritos. 3 são de Timor Lorosae, isto é, Timor Nascente; e 10 são de Timor Loromono, Timor Poente. Entre os “dois lados” de Timor-Leste há algumas diferenças étnicas e no agir, embora também haja muitas semelhanças.

Essas diferenças explicam os distúrbios?

O que aconteceu foi que o chefe das Forças Armadas, Matan Ruak, não aceitou as promoções de ninguém do lado ocidental. Todos os que estavam propostos para serem promovidos foram recusados. Só foram promovidos do lado Lorosae. Os que não foram promovidos [os chamados peticionários] manifestaram-se e foram demitidos das Forças Armadas. Por solidariedade, todos os outros militares dos distritos ocidentais abandonaram o exército ostensivamente. Saíram dos quartéis e foram-se embora. Perante alguma passividade do Governo, os soldados manifestaram-se e concentraram-se à frente do Palácio do Governo. Entretanto, aquilo foi sendo adiado; e, no dia 28 ou 29 de Abril, o primeiro-ministro mandou as forças armadas contra eles e contra os civis que se associaram ao protesto. Há suspeitas, de que naquela noite, não tenham morrido só seis pessoas, como diz o governo. Só daqui a muito tempo é que as pessoas vão começar a dizer, “falta o meu primo”, “falta a minha prima”. Há muita gente deslocada. A verdade é que andaram em confronto uns com os ou-tros. As Forças Armadas, inclusive, não deixaram entrar o Presidente da República nos sítios onde tinham acontecido os confrontos.

Neste processo, os poderes eleitos não estão isentos de críticas…

Houve alguma inércia do governo, como se viu agora com a saída do ministro do Interior e do ministro da Defesa.

Entretanto, a violência já não está centrada na exigência dos militares…

A violência e a destruição que se vêm agora são vinganças pessoais. Já não têm nada a ver com política. As casas queimadas e as mortes seleccionadas são vinganças pessoais. Terá alguma coisa a ver com a rivalidade entre Lorosae e Loromono e tem a ver com os distúrbios de 1999. Predomina esta mentalidade: “Tu, um dia, fizeste isto à minha família ou a um primo meu. Agora vais morrer”.

O poder caiu na rua…

Neste momento [1 de Junho] não há ordem pública. A polícia não está a funcionar. Não há poder. Ninguém manda. Mesmo quando havia polícia, era complicado manter a ordem na cidade. Agora, não há sentidos proibidos; as pessoas voltam a andar sem capacete; aumentou a marginalidade…

Qual tem sido o papel da Igreja e dos líderes religiosos?

Diz-se que Timor tem 95 por cento de católicos. Mas esse número tem de ser relativizado. Tenho a impressão de que a prática dominical não anda muito longe da nossa. Há muita religião, mas não muita fé. Há superstição, uma certa ideia de apaziguar a divindade, de “ter a divindade do meu lado”… Não quero que estas palavras sejam entendidas como crítica. Mas vi que as pessoas podiam ir à missa ao domingo de manhã e à tarde podiam estar a matar.

Algumas opiniões em Portugal estranham a distância da Igreja em relação ao conflito.

A Igreja não está ausente. O Bispo de Díli, D. Alberto Ricardo (era ao reitor do seminário de Díli, quando lá estive em 2002), um homem profundamente espiritual, esteve em algumas reuniões ao mais alto nível, nos momentos mais quentes. Quando as forças internacionais foram chamadas, quem estava na reunião? O Presidente da República, Ramos-Horta e o Bispo de Díli. Na comissão que ia surgir para investigar o problema das Forças Armadas, a igreja estava presente.

Por outro lado, toda a gente se recolheu nas instituições religiosas. A única instituição não religiosa a acolher deslocados foi o aeroporto. No Seminário, eu saía do meu quarto e saltava por cima de pessoas para passar. Estava repleto de gente, desde finais de Abril. Se as pessoas confiam em alguém, é na Igreja.

E é nas instituições da Igreja que se refugiam…

Sim, nos Salesianos, nos seminários… E porquê? Primeiro, porque não se trata de um conflito contra a Igreja. Se aparece um padre à frente vestido de batina, impõe-se respeito. Depois, porque as suas casas não ardem facilmente. As casas que vemos a arder na televisão são feitas de ramos de palmeira, com telhados de colmo ou chapa de zinco. Os edifícios da Igreja são de tijolo, têm muros e estão protegidos. Dão segurança.

O povo sente a ineficácia das instituições governamentais?

Penso que sim. Nestes últimos quatro anos, parece que nada se fez. Está tudo no mesmo sítio. Em 2002, caí num buraco ao lado da sé catedral. Ainda tenho a marca na minha perna. Passados quatro anos, depois de tanto investimento, ainda lá está o buraco no passeio, no centro de Díli.

Relativamente à cooperação, destacam-se Portugal e o Japão, mas parece que o governo timorense está a aproximar-se de Cuba e da China. Há dias mandaram muitos timorenses estudar Medicina em Cuba. E no Hospital Central de Díli há muitos médicos cubanos. Por outro lado, há uma série de acordos com a China, que esteve representada no recente congresso da Fretilin…

Quando saiu de Díli, ainda a GNR não tinha chegado a Timor, embora já se falasse do envio dessa força militarizada. Os timorenses comentavam o regresso da GNR?

Sim. Eles respeitam muito a GNR. Em 1999, os outros militares estrangeiros estiveram muito mais virados para as milícias. Quem controlava a cidade de Díli, em termos civis, era a GNR. Durante estes distúrbios recentes, Timor ansiava pela GNR e estou convencido que a GNR vai pôr ordem no país.

Foi alguma vez contactado pela embaixada portuguesa durante a instabilidade de Abril e Maio?

A diplomacia portuguesa manteve-se muito calma. Nunca quis alarmar e nunca emitiu nenhuma comunicação para sair, ao contrário da embaixada dos Estados Unidos. A nós só nos disse para termos cuidado. Houve sempre uma tentativa de manter a serenidade…

D. Ximenes Belo disse a um jornal português (Jornal de Notícias de 31-05-06) que, se fosse chamado pelas autoridades timorenses, com o acordo da Santa Sé, regressaria a Timor…

Ele tem um grande poder em termos civis, uma grande influência. Porém, o actual Bispo de Dili, D. Ricardo, é igualmente influente. Enquanto padre, foi das pessoas com maior preponderância na luta contra os indonésios. Uma preponderância pacífica. Homem de grande resistência física e moral, D. Ricardo esteve preso e foi violentado, mas manteve-se sempre pacífico.

Durante esta estadia, teve contactos com outros portugueses?

Sim, com alguns jovens como a Karina (sobrinha do Pe Mário Ferreira, pároco na zona de Águeda), que é de Ílhavo, enfermeira voluntária de S. João de Deus, uma outra que é de Lisboa, auxiliar educativa, um irmão de S. João de Deus, um padre capuchinho que é da Guarda, uma assessora do ministro da educação, quase todos voluntários em instituições da Igreja.