Questões Sociais 1. O orgulho político e intelectual dos últimos séculos deu origem à crença idolátrica na possibilidade de todos os problemas sociais serem resolvidos pelo Estado, através da consagração e efectivação de direitos para todos os cidadãos e em todos os domínios. Até aos anos setenta do século passado, ainda se alimentava a ilusão, apesar das elevadas taxas de pobreza e exclusão.
Esta ilusão histórica desenvolveu-se através de direitos integrados nos regimes de segurança social, e através de prestações diversas no âmbito da acção social. Algumas destas prestações acabaram por se transformar em quase-direitos; tal é o caso, nomeadamente, dos serviços prestados nos equipamentos sociais (lares, centros de dia, creches, etc.).
2. Chegados a este momento, o saldo em presença traduz-se, na acção social, em desigualdades e lacunas chocantes: enquanto, por exemplo, muitas crianças, pessoas com deficiência, idosos e “grandes dependentes” dispõem de serviços a baixo custo (adequado ao respectivo poder de compra), muitos outros, porventura a maioria, não recebe nada ou quase nada. É elevadíssimo, e desconhecido, o número de crianças abandonadas e maltratadas, de pessoas com deficiência e de “grandes dependentes” (por motivo de doença grave, deficiência profunda, acidente incapacitante, idade muito avançada, isolamento inaceitável…). Estas e outras situações, de gravidade extrema, exigem um esforço familiar sobrehumano e, na melhor das hipóteses, vão beneficiando apenas de ajudas pontuais, públicas ou privadas.
Paradoxalmente, os responsáveis políticos e os promotores sociais, coniventes com o abandono daquelas situações e absorvidos na concepção de respostas ideais, não apoiam, e até menosprezam, soluções provisórias que tanto ocupam, e preocupam, inúmeras famílias.
Muitos casos sociais poderiam ser atenuados através de “canadianas”, cadeiras de rodas, camas articuladas, pequenos utensílios para o serviço de “grandes dependentes”, pequeníssimas reparações em casas degradadas, acesso regular a cuidados médicos, visitas e ajudas regulares de vizinhos ou de voluntários, congregação de esforços de entidades locais, para a garantia de refeições a quem passe fome, ou para a compra de medicamentos…
Enquanto a política social não assumir nem apoiar, generalizadamente, estas soluções provisórias, como intercalares até às definitivas, milhares de famílias e de cidadãos continuarão votados a um ostracismo cruel. Abandonados e marginalizados.
