O Dia da Igreja Diocesana decorreu subordinado ao tema “Conhecer mais para servir melhor”. Durante todo o dia, os arciprestados apresentaram em tendas, umas maiores outras quase simbólicas, um pouco da sua realidade humana, cultural e religiosa. Se, na de Aveiro, podíamos tomar conhecimento da prática cristã de todas as paróquias, através de gráficos de barras, na de Ílhavo, o visitante podia saborear um bolinho de bacalhau (é por este concelho que entra a quase totalidade do bacalhau consumido em Portugal) e, na de Sever do Vouga, provava-se o famoso licor de mirtilo – só para referir alguns exemplos. A diocese é geograficamente pequena, mas muito diversificada.
No final da manhã, uma mesa redonda moderada pelo Pe Rui Barnabé apresentou o testemunho de quatro cristãos sobre “Igreja e Sociedade, duas realidades que se desafiam”.
Maria Celerina, reformada da Segurança Social, afirmou que “o amor tem necessidade de organização”. “A Igreja prepara-se bem para o anúncio da Palavra e para a celebração dos sacramentos, mas conta apenas com a boa vontade para a prática da caridade”, disse. A responsável pelo voluntariado no Hospital de Aveiro defendeu que a caridade, “um dos três pilares da Igreja”, tem de deixar de ser “o parente pobre”, porque é a “Magna Carta” da Igreja.
Elisa Urbano, professora da Educação Moral e Religiosa Católica e paroquiana de S. Bernardo, criticou as políticas escolares e atitudes irresponsáveis dos pais. O Estado, “em vez de procurar soluções, faz acusações”. Consequência: “os alunos, tal como os pais, andam cada vez mais desorientados”. Por outro lado, “pais a criticarem professores na frente dos filhos está a tornar-se rotina. E os alunos sorriem”. Esta desautorização (semelhante à que pode acontecer num casal perante os filhos) é um “grave erro de educação”. Elisa Urbano considerou de extrema importância que pais e professores se associem para melhorar a educação. “A escola não é do Estado, nem é o Estado que tem de decidir qual a educação que queremos para os nossos filhos”.
Graciete Marques, enfermeira e responsável da Liga Operária Católica/Movimento dos Trabalhadores Cristãos, notou que as “mutações técnico-económicas, a uma velocidade atroz, causam transformações profundas no trabalho”, ferindo a dignidade do trabalhador, “joguete nas mãos do mercado”. Com o aumento do desem-prego, de “socialmente útil”, o trabalhador passa a “dispensável para a vida social”. “O trabalho já não constitui uma dimensão estruturante da vida humana”. Pelo contrário, é “realidade angustiante para todos os trabalhadores cristãos”, por ser cada vez mais notório que, com o medo do desemprego, as pessoas “não trabalham para viver, mas vivem para trabalhar”. Graciete Marques considerou, no entanto, que os tempos são de esperança e apontou três vias: a aposta forte na formação, educação e certificação de competências; a aposta nos novos produtos e serviços, como o turismo, a agricultura biológica ou as energias renováveis; e a reafirmação constante da dignidade do trabalho e do trabalhador, porque este “completa a obra do Criador”.
Luís Silva, teólogo e professor de EMRC, considerou que há dois modos de o cristão se situar perante a sociedade: a “forma defensiva” e a “postura salvífica”. A primeira caracteriza-se por achar que “temos a verdade e o mundo não tem nada a dizer”. “O mundo é tido como lugar de perdição e não devemos estar nele, para não nos contaminarmos”, disse, para a seguir recusar esta forma de estar, porque nela a religião é “coisa do interior, de sacristia”. Na segunda, o mundo é o lugar da Salvação, porque foi criado por Deus e porque Jesus Cristo encarnou no meio da Humanidade. Esta postura exige que “se identifique e denuncie o que desumaniza” o ser humano, que não se perca a identidade cristã (perigo da excessiva identificação com o mundo) e que se “caminhe com fé madura”, na expressão de Bento XVI.
