“Silêncio de Deus” – Demissão dos Homens

1. Segundo os meios de comunicação social, Bento XVI interpelou o “silêncio de Deus”, quando esteve no campo de concentração nazi de Auschwitz. Obviamente, a interpelação em causa não se dirigia ao silêncio de Deus, mas sim ao dos homens com especiais responsabilidades baseadas na fé e na consciência da dignidade humana.

Justifica-se plenamente essa interpelação diante do horror nazi e justifica-se também plenamente em relação ao silêncio universal perante o imenso campo de extermínio actual, que tortura e mata crianças, jovens e adultos famintos, vítimas do tráfico humano, de tortura pública e privada, de condições esclavagistas e de todas as outras for-mas de opressão provenientes de tiranias políticas, de forças económicas, de criminosos mais ou menos organizados…

Não branqueemos o holocausto nazi, mas não aproveitemos a sua condenação para branquear o holocausto actual, muito maior no número de vítimas, embora menos concentrado em termos geográficos.

2. Também não branqueemos a nossa demissão pessoal e colectiva, alegando o vastíssimo conjunto de denúncias, contestações e até iniciativas mais ou menos consequen-tes. Tudo isto contém algum mérito, sem dúvida, mas, verdade seja dita, não existe qualquer movimento global e coerente a favor da dignidade humana: global, na medida em que abranja todas as situações de extermínio e comprometa as instituições públicas e privadas, pelo menos, dos países livres; coerente, na medida em que não se limite à esfera das palavras e das manifestações e se comprometa em acções eficazes e sistemáticas.

Pouco importa que se trate de um grande movimento universal ou da conjugação de entidades várias, porventura incontáveis, qualquer que seja a respectiva natureza ou âmbito. Importante é que o movimento exista e que nenhum cidadão e nenhuma família fique de fora.

O grande movimento a favor da dignidade humana, proposto por João Paulo II no n.º 3 da encíclica “Centesimus Annus”, pode ser um embrião do movimento global. Essa proposta é também, porventura, um forte apelo à eliminação de pretextos que vêm retardando o início da acção necessária, entre os próprios católicos.