À Luz da Palavra – XIV Domingo do Tempo Comum – Ano B A liturgia deste domingo fala-nos dos profetas e das profecias. Não dos falsos profetas que anunciam o futuro, de forma espectacular, mas dos verdadeiros profetas, que recordam ao povo a mensagem da salvação, já revelada, e lhes apontam o caminho a seguir para serem felizes e darem alegria ao Senhor.
Na primeira leitura, o profeta Ezequiel, ao mesmo tempo que sente o imperativo de cumprir a sua missão, tem também uma dúvida interior: Que adianta pregar a um povo que não quer escutar? Não será perder tempo? Mas o Espírito do Senhor ajuda-o a assumir as suas responsabilidades, segredando-lhe interiormente: “Podem escutar-te ou não – porque são uma casta de rebeldes – mas saberão que há um profeta no meio deles”. Porque pôs o dedo na chaga, lançou pedras no charco, foi ousado e atrevido, em nome de Deus, Ezequiel sentiu-se rejeitado pelo povo. Esta é a sorte de todos os profetas!
No evangelho, Marcos fala-nos das dificuldades que o próprio Jesus teve de enfrentar, para cumprir a missão que o Pai lhe confiara. Ele é o verdadeiro profeta e mais do que profeta! Ele é a própria Palavra do Pai. Jesus não é um homem espectacular, nem realiza prodígios para ser aplaudido. Está na sua terra natal e, aí, todos sabem que ele é carpinteiro, filho de José e conhecem bem Maria, a sua mãe, assim como os seus familiares mais próximos, chamados de “irmãos”. Que trará de novo um homem jovem que sabe menos do que eles? À partida, está rejeitado! Mas a verdadeira causa desta recusa é que as suas palavras abalam as estruturas vigentes e contestam as falsas interpretações da Lei de Deus. São palavras revolucionárias demais para os que estão excessivamente acomodados!
Paulo, na segunda leitura, cansado de tantas perseguições e lutas, queixa-se ao Senhor da sua fragilidade, que ele pensa ser um impedimento à pregação do Evangelho. Mas o Senhor diz-lhe: “Basta-te a minha graça, porque é na fraqueza que se manifesta todo o meu poder”. Paulo compreendeu e ajuda-nos a compreender que não são os fortes e os poderosos que Deus chama à profecia, isto é, ao anúncio do Evangelho, mas os fracos. É, exactamente, este sentimento de fragilidade, diante da tarefa a cumprir, que desenvolve em nós o sentimento de humildade e nos leva a perceber que é o Senhor que actua através de nós, seus instrumentos. A nossa palavra e acção são tanto mais eficazes, quanto mais nos sentirmos frágeis e pequenos e mais confiarmos na força de Deus. O importante é que as perseguições, calúnias ou rejeições, que temos de suportar, não nos façam depor as armas do bom combate pela causa de Deus e da sua Palavra.
Pelo baptismo, cada cristão/ã participa da missão profética de Jesus. Tenho consciência disso? Sinto-me em paz e sou feliz quando me rejeitam por causa do anúncio e da vivência do Evangelho? Habitualmente, procuro solidarizar-me com os mais fracos, os rejeitados, os criticados, ou, ao contrário, sou inclinado/a a agredir, mal dizer, caluniar? Sou rebelde ou obediente ao Espírito do Senhor? Exerço a minha vocação de profeta, sem temor, apenas confiado/a na força de Deus?
Leituras do XIV Domingo do Tempo Comum: Ez 2,2-5; Sl 123 (122); 2 Cor 12,7-10; Mc 6,1-6
Deolinda Serralheiro
