“Pontos Negros” da liberdade religiosa no mundo

Fundação Ajuda à Igreja que Sofre apresenta Relatório A liberdade religiosa é um bem raro. Cristãos, muçulmanos ou budistas nem sempre podem professar a sua fé – revelam os casos e números do Relatório apresentado em Lisboa.

O “Relatório 2006 sobre a Liberdade Religiosa no Mundo”, lançado no dia 26 de Junho pela Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), apresenta “uma radiografia não animadora do mundo em que vivemos”. A opinião é defendida pelo Bastonário da Ordem dos Advogados, Rogério Alves, que apresentou a obra.

Rogério Alves considera essencial “uma leitura atenta e uma reflexão ponderada” sobre os casos apresentados, lembrando que em muitas zonas do mundo “não se respira liberdade”.

Da leitura do relatório sobressaem, de facto, situações que o Bastonário classifica como “kafkianas”, com prisões arbitrárias, tortura e casos de pessoas como o de uma senhora que, aos 96 anos, está na cadeia sem saber porquê. Rogério Alves não deixou de se manifestar chocado pela “brutalidade” com que algumas pessoas são torturadas por causa da sua fé.

O relatório foi dividido por continentes e aponta os países onde aconteceu “algo de relevante” neste âmbito, como, por exemplo, na China, na Coreia do Norte, no Vietname, na Nigéria, no Sudão. O fundamentalismo islâmico e os países comunistas são apresentados como os “pontos negros” da liberdade religiosa.

O relatório não esquece, contudo, os Estados Unidos da América e alguns países da Europa, como a França, o Reino Unido, a Rússia e a Ucrânia. No Kosovo, líderes religiosos cristãos precisam mesmo de escolta das forças internacionais para se dirigirem a celebrações religiosas.

Particularmente delicada é a relação com o Islamismo, dado que aos atentados terroristas dos últimos anos se seguiu uma espécie de onda de violência anti-muçulmana.

A repressão começa no plano legal, nalguns casos com a proibição absoluta da profissão da fé, que leva à perseguição de tipo criminal, com prisões, violação de direitos cívicos, tortura.

O Bastonário da Ordem dos Advogados afirmou que “apesar de todas as dificuldades, há pessoas que, através do seu testemunho de fé, vivem a sua vocação, encarando com alegria os riscos que lhes são dados enfrentar”.

“O relatório espelha o desafio desta necessidade de maior fraternidade nas confissões religiosas e nos seus fiéis. Hoje, com os fenómenos migratórios, temos cada vez mais países onde se misturam crenças religiosas”, assinalou, em declarações aos jornalistas, o Bastonário.

Maria Cavaco Silva, primeira dama, afirmou, por sua vez, que estas são realidades “que muitos tendem a ignorar”, prestando homenagem aos “mártires contemporâneos” e apelando à eliminação de “todas as formas de intolerância e discriminação” religiosas.

Relatório 2006

Os dados do Relatório 2006, Liberdade religiosa no Mundo, dizem respeito ao período entre Janeiro de 2005 e os primeiros meses de 2006. Em 383 páginas, foram analisados 119 países, nos cinco continentes, em matéria de violações à liberdade religiosa, com base em testemunhos de representantes religiosos, documentos oficiais, dados de agências noticiosas internacionais e organizações de defesa dos direitos humanos, apresentando-se também alguns dados estatísticos sobre cada país (pertença religiosa, total de população, número de católicos baptizados, número de refugiados e de deslocados).

Os extremismos da perseguição por motivos religiosos e das violações à liberdade de culto encontram-se referenciados ao longo de todo o relatório, que indica a ocorrência de assassinatos, atentados, sequestros e detenções de representantes religiosos ou de crentes.