Jornadas Nacionais do Episcopado Português Os Bispos portugueses sabem e sentem que a evangelização passa também pela Internet e pelas novas tecnologias. Em Fátima, ouviram especialistas e pioneiros das redes da comunicação – a pensar nas redes dos apóstolos.
Os Bispos portugueses reunidos em Fátima, nas Jornadas Pastorais da Conferência Episcopal Portuguesa, entre 19 e 22 de Junho, deixaram-se assaltar este ano pelo desafio da (re) descoberta das novas tecnologias. As variadas iniciativas, que reúnem ainda outros representantes das dioceses do país, são dedicadas ao tema «Deus na “rede”: formas do religioso na Internet».
A articulação feita entre “novas tecnologias” e “evangelização”, o impacto global da Internet na igualmente “aldeia global” em que vivemos (caracterizada por fortes e massivos índices de informação), as experiências de formação e de acompanhamento espiritual através dos novos suportes tecnológicos, a abundância do religioso no chamado “espaço virtual” (visto já como uma nova dimensão) e a comunidade eclesial em Portugal foram alguns dos assuntos abordados de maior notoriedade.
António Rego, director do Secretariado Nacional das Comunicações Sociais da Igreja católica, explicou que “os Bispos têm visto demonstrações das novas tecnologias, com dispositivos multimédia”, mas “a ideia foi expor um conceito alargado e mais moderno de media hoje, que tem a ver sobretudo com as novas tecnologias”.
Entretanto, Manuel Clemente, bispo auxiliar de Lisboa e presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais, que coordenou as Jornadas, referiu, a abrir o encontro, que “a Internet deve ser encarada pelos católicos com ‘juízo crítico’ e como ‘algo benéfico’ para a sociedade de hoje”. Para este membro da Conferência Episcopal Portuguesa, é claro “que vivemos numa sociedade marcada pela omnipresença dos media, e que isso exige de qualquer presença da Igreja uma permanente actualização de conteúdos”.
Gustavo Cardoso e Pedro Mexia, relacionaram a Internet como fenómeno global e o seu impacto na sociedade portuguesa. O poeta, crítico literário e “bloguista” Pedro Mexia afirmou mesmo que “a Igreja tem perdido o combate cultural que a Internet proporciona”. Gustavo Cardoso, docente do ISCTE, no departamento de Ciências e Tecnologias de Informação, em Lisboa e desde 1996 consultor da Casa Civil da Presidência da República para a Sociedade de Informação e Telecomunicações, afirmou que para os desafios apresentados pela “rede” não existem “receitas feitas, mas à medida que se vão experimentando soluções vai-se, também, progredindo na implementação de novas alternativas às provocações que estabelecem perante a sociedade”.
Tolentino Mendonça, padre, poeta e teólogo, partindo da provocação levantada pelo evangelho de Lucas, no seu capítulo quinto, quando Jesus Cristo diz aos seus discípulos “lançai as redes”, fez a reflexão sobre a persistência e a actualidade que esta metáfora cristã poderá ter, ao longo dos vários modelos propostos pela “Palavra de Deus” na sua ligação à linguagem e aos modelos do mundo das “novas tecnologias”.
Perigo
da indigestão informativa
À pergunta “onde está Deus” Manuel Pinto, professor associado do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho, na área de jornalismo, deu algumas pistas e rumos sobre a profusão do religioso no campo virtual. Para este perito “a experiência mística, a vida comunitária, a pregação, a confissão e a adoração não podem ser substituídas pelas novas tecnologias”, acrescentando, entre outras coisas, que, “na infinidade de conteúdos e informação, é necessário criar roteiros, para atribuir sentido e tirar benefício da navegabilidade da rede”, pois de outra forma pode-se entrar em colapso por “excesso de informação, por “indigestão informativa”.
No dia 21, a mesa que debateu algumas experiências já realizadas no campo dos media teve as intervenções de Peter Damian Stilwell, padre, teólogo, professor da UCP e director dos cursos “online”, difundidos por aquela instituição universitária, Laurinda Alves, directora da revista “Xis”, Jorge Castela, padre da diocese da Guarda, aí director do Secretariado Diocesano da Pastoral Juvenil e pároco, e Júlio Grangeia, padre da diocese de Aveiro, pároco, considerado o primeiro padre português com uma página de grande difusão na Internet.
Das várias experiências expressas, as de Peter Stilwell e de Júlio Grangeia suscitaram várias questões por parte dos participantes. Por um lado, “as possibilidades da formação à distância, através da Internet, e da sua eficácia nos âmbitos da aprendizagem e da comunicação, tendo em conta a recente experiência com o curso de turismo religioso,” são bastantes, referiu Peter Stilwell, adiantando que este é ainda “um novo modelo de formação em evolução”. Por outro lado, Júlio Grangeia, afirmou igualmente as ilimitadas potencialidades da Internet, sobretudo “na tomada de consciência do (recheio) que se transmite na divulgação da mensagem cristã” e na “melhoria significativa da comunicação dos conteúdos associados a Jesus Cristo e à Igreja Católica”. “Se nós não colocamos Deus na rede (web), outros colocam ou-tras coisas”, disse o padre da diocese de Aveiro.
Site, RSS, Podcast, Blogue, mail, motor de busca, SMS, Mupies, outdoors, GPS, ou nova geração foram, entre outras, algumas das certezas e dos assédios com que os Bispos portugueses se familiarizaram ainda mais durante os dias dessa jornada.
“A Internet deve ser encarada pelos católicos com ‘juízo crítico’ e como ‘algo benéfico’ para a sociedade de hoje”.
D. Manuel Clemente
“A Igreja tem perdido o combate cultural que a Internet proporciona”
Pedro Mexia
“A experiência mística, a vida comunitária, a pregação, a confissão e a adoração não podem ser substituídas pelas novas tecnologias”
Manuel Pinto
“Se nós não colocamos Deus na rede (web), outros colocam outras coisas”.
Pe Júlio Grangeia
“Lançai as redes” (evangelho de Lucas) é uma boa metáfora para a missão da Igreja em tempo de “novas tecnologias”.
Pe Tolentino Mendonça
