Entrevista ao Pe Júlio Grangeia É considerado o primeiro padre português com uma página pessoal na Internet (www.padrejulio.net). Francisco Júlio Grangeia Pinto, 48 anos, pároco de Travassô, Óis da Ribeira e Espinhel (arciprestado de Águeda), dedica algum do seu tempo à pastoral da Internet, permitindo que muitos, por vezes do outro lado do oceano, se aproximem da fé cristã. A gravação da Eucaristia, todas as semanas disponibilizada no seu “site”, é vista por mais de 500 pessoas – a sua maior assembleia. Por ser pioneiro no acompanhamento espiritual utilizando a Internet, os bispos portugueses quiseram ouvi-lo. E o Correio do Vouga pediu-lhe que falasse, mais uma vez, do trabalho notável que vem fazendo.
Correio do Vouga – Afirmou aos bispos portugueses que “se nós não colocamos Deus na rede, outros colocam outras coisas”. O que quer dizer com isso?
Pe Júlio Grangeia – O que quero dizer é que a Internet não é uma “moda” que hoje existe e amanhã desaparece; é algo irreversível! Num “amanhã” muito próximo, já ninguém viverá sem ela! Por isso, se nós não assumirmos (e já!) como instrumento privilegiado para proclamar a Boa Nova de Jesus Cristo, outros a utilizarão para proclamar outras “novas” não necessariamente “Boas”. Não exagero se disser que usar ou não usar a Net para a Evangelização é uma questão de vida ou de morte para a divulgação da Fé Cristã nos tempos mais próximos!
Há muita gente na Net à procura de Deus?
Hoje há muita gente que procura Deus na Internet e também há gente que O procura mesmo dizendo-se ateu e agnóstico! Afinal de contas, também são filhos de Deus e filhos que Deus também ama. A presença da Igreja na Net pode ser, por isso, um “porto de abrigo” para tantos que navegam sem rumo neste mar global! E, se tantas vezes, por querer e sem querer, encontramos coisas que não prestam – porque alguém as pôs lá – porque não colocar Deus na Internet para Este ser encontrado por querer… e sem querer?
A Igreja está desatenta à Internet? O que se pode fazer para inverter a situação?
Eu não diria que a Igreja esteja desatenta, até porque ela já vai tendo uma presença significativa (em termos quantitativos e qualitativos) neste mundo virtual, através dos “sites”, “blogs”, Fóruns, Canais de conversação, “Podcasts”, Rádios na Net…
Mas…
O problema está, muitas vezes, na falta de actualização. Não basta ter um “Site” ou “Blog” muito bem feito; é fundamental actualizá-lo com regularidade. Se uma pessoa visita um Portal na Net e vê uma coisa, e torna a vir, outro dia, e encontra tudo na mesma, é evidente que nunca mais mete “lá” os pés.
A linguagem da Igreja passa bem na Internet?
Estou convicto que, nestas coisas, a Igreja tem ainda muito a aprender no que ao “marketing” diz respeito. Apesar do nosso “produto” ter especificidades muito próprias, temos que o saber apresentar para o nosso tempo! Eu diria mais: A Igreja tem que saber “vender” o “seu produto”, o que nem sempre acontece, a começar, precisamente, com a linguagem que nós, Igreja, utilizamos e que está, muitas vezes, desfasada do homem comum. Hoje, temos que apresentar o nosso “produto” com muita criatividade mas sobretudo com leveza, para que as pes-soas não se “assustem” e entendam do que é que estamos a falar.
É bom não esquecer que estamos num tempo em que se dá mais importância ao “embrulho” e à “embalagem” do que ao conteúdo. Portanto, é fundamental dizer o que se quer dizer, mas também, e sobretudo, saber dizer com a linguagem mais indicada a quem nos visita na Net.
E qual é essa forma de saber dizer?
Também não sei, não tenho a varinha de condão, mas, se calhar, é preferível dizer menos bem e todos entenderem do que falar tudo como deve ser e só sermos entendidos por “meia dúzia”. Esta tem sido, para mim, uma estratégia que tenho vindo a utilizar e, sinceramente, ainda não me arrependi de a usar!
Como se pode pôr Deus na rede?
Não tenho a solução na manga. O que posso dizer é o que tenho feito. E neste aspecto, de há uns tempos para cá, tenho trabalhado na Internet a dois níveis: Respondo ao correio electrónico que vou recebendo e vou facultando informações das Paróquias, do Arciprestado e da Diocese, no meu “site”, que vou procurando actualizar com frequência diária ou quase diária. Além disto, transmito em vídeo a Eucaristia de uma das minhas Paróquias, em diferido, ao final da tarde de Domingo, ficando depois disponível no meu site por um período de 15 dias. Brevemente tenciono transmitir a Eucaristia mesmo em directo. A Eucaristia em diferido é vista por mais de 500 pessoas, sendo que, muitas delas, são emigrantes na Venezuela, Luxemburgo, África do Sul, Irlanda… Alguns chegam mesmo a telefonar-me de propósito, como já aconteceu da Venezuela: “Ó, Senhor padre, o Senhor nem sabe o bem que nos faz!” – dizia-me um conterrâneo.
E recebe muito Correio?
Há semanas que chego a receber vinte e-mails ou mais… fora o “lixo”. Claro que não chego para as encomendas. Vou procurando responder da melhor forma que posso e sei mas é óbvio que por vezes tenho que seleccionar. Se não consigo responder a todos, procuro, pelo menos, não deixar sem resposta quem me procura angustiado e com problemas de consciência…
De que tratam os e-mails?
Fala-se de tudo: esclarecimento de dúvidas, incentivos, elogios, críticas, desabafos…
O Pe Júlio começou a sua intervenção na reunião dos bispos com relatos que impressionaram a assembleia. Pode contar-nos um deles?
Não é tanto o caso mas a forma como ele nos é contado pelas pessoas, muitas vezes, com o coração angustiado. Um desses casos que contei aos Bispos, em Fátima, mantendo sempre a privacidade da pessoa – para mim é como se fosse segredo de confissão – foi o de uma senhora que, porque não se confessava há mais de vinte anos, quis comungar na comunhão do filho. Apesar de todo o esforço que fez para se confessar, não teve a coragem de transpor a porta da igreja da sua terra, porque pensava que o padre a não entenderia. Abriu o seu coração num e-mail que me dirigiu, sentiu-se com confiança. O resultado foi que fez mais de uma centena de quilómetros para se confessar aqui, na Paróquia de Travassô, onde resido.
Mas, como este, há “montes” de casos assim. Encontram o meu site, que é uma porta aberta para as pessoas chegarem até mim, encontram o meu e-mail, e pronto. Não têm nada a perder – porque podem continuar anónimos – e têm tudo a ganhar – porque falam com um padre Católico!
Na diocese de Aveiro, acha que foram dados alguns passos para uma pastoral da Internet? O que pode ser feito? Apenas se pode agir individualmente, como o Pe Júlio?
Nestas coisas não se pode agir individualmente, mas de uma forma estruturada e sistemática, o que neste momento não acontece. A Diocese tem que assumir a Internet como uma prioridade pastoral e não como um “fogozito”, que é preciso “apagar” aqui ou ali por um ou outro “bombeiro”. Se não se começar a fazer já um trabalho sério, sistemático, e concertado nesta enorme “floresta”, o “fogo”… “queima” tudo!
É portanto fundamental uma aposta nesta linha?
Claro que sim. Ontem Jesus Cristo dizia: “Ide por todo o mundo e anunciai o Evangelho!” Hoje Ele continua a fazer o mesmo apelo. Só que hoje já não é preciso ir a todo o mundo anunciar o Evangelho. Na Internet é todo o Mundo que vem ter connosco. Basta estarmos ligados, na rede, e lançarmos as “redes”, neste “mar” do século XXI, que se chama Internet!
