Milagre da divisão dos pães

À Luz da Palavra – XVIII Domingo do Tempo Comum – Ano B A liturgia da palavra deste domingo fala-nos da magnanimidade de Deus, que nos enche de todos os bens, temporais e, sobretudo, espirituais. Esta generosidade divina contrasta com a nossa tacanhez, sobretudo quando nos fechamos no nosso egoísmo e não ouvimos os gritos da humanidade, carente de tudo, até do mais essencial, que é o pão de cada dia. A palavra garante-nos que Deus se oferece a nós, a cada pessoa e à humanidade em geral, e que, se confiarmos nele, nada nos pode faltar. Ele abre as suas mãos e sacia a nossa fome, como canta o salmo 145.

Na primeira leitura, vemos o profeta Eliseu a saciar a fome a cem pessoas, apenas com vinte pães, porque o Senhor lhe disse: “Dá-os a comer a essa gente. Comerão e ainda há-de sobrar”. No evangelho, João fala-nos de um prodígio ainda maior: cinco mil homens ficaram saciados com cinco pães de cevada e dois peixes. E ainda sobrou pão. O milagre da abundância opera-se, porque estes cinco pães passaram pelas mãos de Jesus, como outrora os vinte pães tinham passado pelas mãos do profeta Eliseu, por ordem de Deus.

Será que há, ainda hoje, profetas que façam passar os seus bens pelas mãos de Jesus? Cristo, habitando no meio dos homens e mulheres do nosso tempo, é Ele mesmo o pão integral (total), que mata todas as fomes do mundo, as do corpo e as do espírito. Os cristãos, que “praticam” verdadeiramente Jesus Cristo, sabem alimentar-se dele, diariamente, comendo o pão da Palavra e da Eucaristia. Aprendem com este Pão a partilhar tudo o que têm com os demais. Hoje, não há ninguém que não se aperceba das profundas desigualdades sociais. Há cada vez mais pobres e cada vez mais ricos, abarrotando de todos os bens. Multiplicam-se os apelos de solidariedade, fazem-se campanhas de rua, abrem-se bancos alimentares contra a fome, mas as imagens que nos chegam e as notícias que vamos lendo indicam-nos que, cada dia, morrem milhares de pessoas, sobretudo crianças, por falta de nutrição. Há quem pense resolver o assunto, combatendo a natalidade. Contudo, o problema não se encaminha por aí. É necessário que cresça a caridade cristã, à qual se chama, vulgarmente, solidariedade.

Na segunda leitura, Paulo recomenda aos cristãos que vivam de tal modo Cristo, que manifestem ao mundo que há um só Pai, Deus, que “actua em todos e em todos se encontra”. É, exactamente, este testemunho de que há um só Pai e de que todos somos irmãos e irmãs, iguais em direitos e deveres, que o cristão é chamado a dar, pela partilha pessoal e pelo apelo aos outros, para que partilhem, também, não só daquilo que lhes sobra, mas do que lhes faz falta, aprendendo a viver na sobriedade para uma maior caridade. Se todos aprendermos a partilhar como Jesus, entregando-lhe os nossos “cinco pães e os dois peixes”, isto é, tudo aquilo que temos e somos, Jesus encarregar-se-á de nos ensinar a matar a fome espiritual e corporal a todos os irmãos e irmãs de quem nos quisermos fazer próximos. Porque todos comerão e ainda há-de sobrar, prometeu o Senhor. A mesa da Eucaristia está sempre posta e o convite de Jesus para este banquete dirige-se a todos. Tenho fome deste pão? A partilha eucarística impele-me à partilha fraterna?

Leituras do XVII Domingo do Tempo Comum: 2 Reis 4,42-44; Sl 145 (144); Ef 4,1-6; Jo 6,1-15

Deolinda Serralheiro