Adaptações da cultura romana clássica

Símbolos cristãos – 4 No Antigo Testamento, como é sabido, fazer e usar imagens era algo proibido pelo decálogo (ver Dt 5,8). Deus ultrapassa qualquer representação humana. Representá-lo é limitá-lo. É alimentar a ilusão de que podemos manipulá-lo.

Com o cristianismo, tal proibição, se não foi abolida, foi, pelo menos, ultrapassada. Quer dizer, Deus é irrepresentável. “A Deus nunca ninguém o viu”, diz a Bíblia. Mas o seu Filho, Jesus Cristo, verdadeiro homem, verdadeiro Deus, habitou entre nós. Nasceu, cresceu, comeu e bebeu entre os homens. Foi visto pelos homens e mulheres. Lentamente, ultrapassou-se a proibição absoluta de fazer imagens, na convicção de que a Encarnação, por um lado, e a presença de Cristo na Eucaristia, por outro, legitimavam o seu uso, com as devidas salvaguardas. Por esta razão teológica e reconhecendo-se a necessidade humana de símbolos – poderíamos chamar a isto a “razão pedagógica” – nasce a arte cristã.

Ao contrário do que poderíamos pensar, a cruz (sem Cristo) e a crucificação (ou crucifixão) são representações relativamente tardias (sécs. IV e V). As primeiras representações plásticas do cristianismo (séc. II) servem-se de elementos da cultura romana, como o pastor (ver Correio do Vouga de 12 de Julho), e alguns que caíram em desuso (excluamos o peixe, ichtus, em grego, que funcionava como acróstico de Iesus Christos Théou Uios Soter, Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador – questão já abordada neste espaço). Vejamos algumas dessas representações:

– a âncora (esperança), em que facilmente se vê a cruz. Por vezes aparecia associada ao peixe nos epitáfios na sepultura de um cristão. O sentido era claro: Spes in Christos (Esperança em Cristo);

– a fénix renascida das cinzas – como Cristo “renasce” da morte;

– o pavão (segundo a fábula, a sua carne era indestrutível) – referência à ressurreição de Jesus;

– Orfeu e Eurídice (segundo este mito, Orfeu resgatara Eurídice do Hades, ou seja, o inferno na mitologia grega) – referência à descida de Cristo à mansão dos mortos;

– Ulisses amarrado ao mastro do barco para não ser atraído pelo canto das sereias – evocação de Cristo crucificado;

– o próprio Hércules, figura mitológica muito popular na Antiguidade, é associado a Jesus Cristo por ter passado por uma série de provações – os doze trabalhos de Hércules.

Na ausência de uma tradição simbólica gráfica, o cristianismo adoptou, sem grandes complexos, figuras da mitologia clássica que mais tarde seriam abandonadas.

J.P.F.