“Os pobres possuirão a Terra” (Sl 37, 11)

Direitos Humanos Foi lançado recentemente um documento extraordinário, intitulado: “Os pobres possuirão a terra”. Trata-se de um pronunciamento conjunto de bispos católicos, anglicanos e pastores de diversas igrejas protestantes.

Aparentemente seria um trabalho que apenas mostraria a opinião das autoridades religiosas cristãs sobre as questões de terra no Brasil. E, se o seu carácter ecuménico já era um verdadeiro desafio, o título estimulou-me a lê-lo sem demora.

Para minha agradável surpresa, o que descobri foi um pronunciamento que vai muito além de questões fundiárias. Na verdade, o que os bispos e pastores apresentaram foi as suas preocupações acerca do sistema económico neoliberal e respectivas consequências nefastas para a sociedade actual, principalmente para os mais pobres.

Apresenta-se como extraordinariamente profética a visão que estas lideranças cristãs brasileiras têm sobre o modelo de desenvolvimento no Brasil e nas sociedades ocidentais. Segundo os autores do documento, em nome do “progresso”, o neoliberalismo idolatra o mercado, concentra cada vez mais as riquezas nas mãos dos privilegiados e está a provocar a devastação ambiental, bem como a fazer aumentar a violência contra os excluídos. É sobre esta realidade que os pastores destas igrejas se debruçam.

O documento é deveras inquietante, aliciante e deliciosamente subversivo. A reflexão está, toda ela, baseada nas Sagradas Escrituras, o que impede, desde logo, que se rotule este pronunciamento de panfletário. Ele não está a serviço de quaisquer ideologias políticas. Está escrito, isso sim, numa perspectiva libertadora e autenticamente evangélica. Até porque, como o documento refere, a “fé é deixar que nossos olhos se transfigurem pela luz do olhar de Deus, é o jeito divino de enxergar as coisas e o mundo”.E é assim, neste estilo de linguagem, simultaneamente poético e perturbante, que os bispos e pastores expõem os seus pensamentos. A profundidade do que se pode ler no pronunciamento torna impossível não reconhecer, na sua génese, a inspiração do Espírito Santo.

O texto reivindica, das autoridades, políticas públicas que visem o bem comum. Denuncia, ainda, que essas mesmas autoridades não se podem manter, vergonhosamente, atreladas aos interesses do mercado, do capital, do latifúndio e da exploração. As propostas, que os bispos deixam, são bem claras: trata-se de medidas concretas para o combate ao neoliberalismo económico e para a efectivação da reforma agrária no Brasil.

Como referi, o documento não se limita a questões fundiárias nem tão pouco se limita a uma realidade latinoamericana.

Sugiro, pois, a leitura atenta do pronunciamento em www.terrados pobres.org.Verão como a convocação às Igrejas, para que “sejam testemunhas coerentes de desprendimento e de solidariedade com os mais pobres e de compromisso com a vida do planeta”, vai parecer dirigida a cada um de nós.

O passo seguinte – que é apelo de Cristo – será transformar a nossa inquietação em atitudes concretas de opção pelos pobres e de luta pela justiça, em qualquer parte do mundo.