A família, espaço de resistência

A família tem sido objecto da atenção prioritária nos documentos pontificais da Doutrina Social da Igreja (DSI): “Lugar primeiro da humanização da pessoa e da sociedade” (João Paulo II, Christifideles Laici, 1989), “Célula primeira e vital da sociedade” (Vaticano II, Apostolicam Actuositatem, 1965), “Santuário da vida, sede da cultura da vida” (Centesimus Annus), “Igreja doméstica chamada a anunciar, celebrar e servir o Evangelho da vida” (João Paulo II, Evangelium Vitae, 1995), A escola do mais rico humanismo (Gaudium et Spes), “A primeira escola das virtudes sociais” (Vaticano II, Gravissimum educationis, 1965), “Uma comunidade de amor e de solidariedade” (Santa Sé, Carta dos Direitos da Família, 1983).

De entre todas as sociedades humanas, a família é a única natural. Não foi inventada cientificamente, não resulta de qualquer legado jurídico, não foi imposta por qualquer acto administrativo, não germinou fruto de uma qualquer ideologia.

Apesar da desconsideração a que, não raro, é sujeita, a instituição familiar continuará a ser a primeira e mais decisiva infra-estrutura moral e referencial na conjugação e transmissão de valores e de saberes.

Desconsideração não apenas das autoridades políticas e de outras instituições, mas também por parte de famílias que tendem a demitir-se dos seus papéis vencidos pela pressa, pela angústia, pela indiferença, pela acomodação, pela resignação. Quantos “filhos órfãos de pais vivos” (João Paulo II), quantos filhos de pais a tempo cada mais parcial, quantos avós de netos distantes não sofrem a ausência da família? Quantas refeições se transformam em salas de espectáculo televisivo ou mesmo em almoços ou jantares de negócios ou de relatórios executivos?

Mas a ideia de família está sempre presente no nosso quotidiano como referência e valor. Assim é que dizermos que “não há nada melhor do que um bom conselho de família”, que suspiramos por um “médico de família”, que temos uma relação afectuo-sa com a expressão “abono de família”, que sempre desejamos ser um “bom pai de família”, que nos orgulhamos enquanto amigos de alguém de dizer que quase “fazemos parte da sua família”, que segredamos para “ficar em família”, que gostamos de um qualquer restaurante pelo seu “ambiente familiar”.

Não há um dia em que a família não seja objecto de proclamação pelo mundo fora. Aliás, o mesmo acontece com a paz. No entanto, é da crise da primeira e da ausência da segunda que a actualidade se alimenta freneticamente.

Porque há famílias em crise, os novos paladinos da “libertação” familiar logo concluem silogisticamente pela crise da família.

Então, pelo mesmo raciocínio, havendo desemprego, menosprezamos o valor do emprego? Havendo doenças, desvalorizamos o benefício da saúde? Havendo fumadores, devemos dar menos valor ao benefício de não fumar?

Claro que não. Havendo muitas famílias em dificuldade, ninguém, de boa fé, pode, todavia, pôr em causa a família como a expressão antropológica mais solidarista de transmissão da vida, de partilha geracional, de desenvolvimento da personalidade, de mais informal e eficaz instituição de protecção social e de afectos, de escola de trabalho.

Mas temos que reconhecer que as vulnerabilidades por que passa a família são a principal causa de problemas na sociedade e, em certa medida, de empobrecimento cívico, espiritual, afectivo e educativo.

A família é uma unidade feita da diversidade de idades, onde cada um vale mais pelo que é do que pelo que tem.

Por isso, a família pode e deve ser a primeira instância de resistência contra a renúncia a valores superiores, sem os quais apenas se pode construir uma qualquer ilusão fugaz.

Bem se sabe que é preciso haver abertura intelectual para perceber as mudanças no mundo que nos envolve. Mas também não podemos descartar a profundidade e extensão da experiência acumulada de gerações passadas.

Não há desenvolvimento verdadeiramente humano e qualidade de vida humanizada sem qualidade da família. Nem é possível e dese-jável construir e desenvolver um “Estado de bem-estar” radicado num certo “mal-estar das famílias”.

A família não é para a sociedade e para o Estado, antes a sociedade e o Estado são para a família” (Conselho Pontifício Justiça e Paz, 2004).

Em matéria familiar, tenho todo o respeito pelas normas, mas acredito mais nos valores. Valorizo os recursos, mas elejo o exemplo. Admiro o êxito individual, mas sou mais sensível ao sucesso familiar.

“O futuro da humanidade passa pela família!” (Familiaris Consortio).