Médico pediatra, com 81 anos, Jorge Biscaia foi um dos pioneiros da bioética em Portugal, tendo criado, em 1988 o Centro de Estudos de Bioética. Antigo professor de Pediatria na Universidade de Coimbra, foi director dos Serviços de Neonatologia da Maternidade Bissaya Barreto, onde fundou e desenvolveu a Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais. Recebeu em 2008 a Grã-Cruz da Ordem de Sant’Iago da Espada. De passagem por Aveiro, para participar na primeira reunião do grupo local de Bioética, falou com o Correio do Vouga. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira
CORREIO DO VOUGA – Antes, as pessoas sabiam como nasciam e como morriam. Hoje, estamos mais confusos quanto ao princípio e fim da vida.
JORGE BISCAIA – Sim, e para isso é que existe a bioética, que quer pôr a tecnologia ao serviço das pessoas, respeitando as pessoas. A bioética quer levar as pessoas a pensar em normas éticas para a sua vida e a morte. É evidente que antes não se punha o problema de como nasciam. Era tudo o mais natural possível. Mas o nascimento foi evoluindo com a técnica. Apareceu a fecundação “in vitro” intra casal. Mas depois começaram os desmandos, surgindo, por exemplo, as “mães hospedeiras”, com material genético de outras pessoas. Ora, durante a vida intra-uterina não se dá somente o sangue e a respiração. O feto recebe as emoções da mãe, as doenças, as angústias e alegrias… A vida intra-uterina não é: abre-se a porta, entra o hóspede e fecha-se a porta. Há sempre um envolvimento. Há interacção. Há perguntas e respostas entre o corpo da mãe e o do filho desde o primeiro momento. Mas há outros desmandos. Por exemplo, um casal homossexual que quer ter filhos. Pode adoptar filhos de outra mulher, mas é evidente que a criança tem direitos. O filho não é “cavalo mandado” dos pais. Tem o direito a poder escolher o caminho futuro. Se os pais são iguais, não pode escolher.
Quer dizer que é contra a adopção por casais homossexuais?
Não tenho nada contra que eles tenham relações homossexuais. Defendo é que o filho tem o direito a ter um pai e uma mãe. A criança tem direito a ser educada por uma personalidade de homem e de mulher, de pai e de mãe. É o seu caminho de liberdade. O filho não é o que os pais querem que seja. Os pais dão as bases da relação, mas o filho é livre.
Esses são apenas alguns problemas do início da vida. E quanto ao fim? Diz-se que a sociedade portuguesa é permissiva quanto à eutanásia…
Não sei. As sondagens iludem. Se perguntam: “Dá-se a eutanásia para evitar o sofrimento?” A maioria diz que sim. Mas 99 por cento dos casos de dor são resolvidos com um bom tratamento da dor. Mesmo nessa lógica, não seria necessária a eutanásia. Quem diz sim não está ao corrente da medicina. O problema da pessoa que está a morrer não é o da dor. É o do sofrimento, estar sozinho, pensar que não tem futuro, pensar que é um peso para os filhos. A solução para isso, além do afecto da família, passa por uma equipa de cuidados paliativos.
O acompanhamento e o afecto são antídotos para a eutanásia?
O que faz mais falta é um projecto de vida, mesmo na hora da morte, que pode ser dado por uma conversa, por um amigo, por uma mão que toca. Todos morremos. Todos sabemos que estamos num caminho para a morte. Esse caminho pode ser acompanhado ou não. Pode ser um caminho de plenitude, de encontro de carinho, de reflexão pessoal sobre a vida. O sofrimento é provocado não só pela dor física, que existe, mas pode ser controlada, como também por sentir-se inútil, não saber o que vai acontecer ao filhos… A dor é um falso problema.
A sociedade tem hoje mais medo de enfrentar a morte do que ontem?
Antes, não havia diagnósticos precoces como agora. Agora, sabe-se das doenças que levam à morte. Isso é bom, mas tanto pode dar para preparar a morte, como para temê-la.
O factor religioso não influencia, não dá tranquilidade no final da vida?
É mais fácil o fim da vida para quem um sentido espiritual do que para quem não tem. Mas isso não quer dizer que não tenha incertezas. E tem de ser ajudado na mesma. Vêem-se muitos casos de vidas transformadas no final graças à amizade, por vezes até a amizade de médicos.
Essa amizade dos médicos e de outro pessoal de saúde não devia existir sempre que alguém está doente?
Sempre. Mas o que acontece é que hoje a medicina é muito técnica. Muito tecnológica. Faz-se uma radiografia, uma ecografia, uma TAC. É tudo muito técnico. Ouve-se pouco o doente. O médico já não toca no doente. Tinha um professor de pediatria que dizia que as mães têm sempre razão, que é preciso ouvi-las. Ouvir é olhar olhos nos olhos e deixar falar, até para ir ao encontro da sua angústia. No caso da mãe, o que ela pensou, ou viu na televisão, o que lhe disseram.
É um pediatra dos mais conhecidos do país. Com mais de 50 anos na pediatria, viu muita coisa mudar.
Passei de uma pediatria não tecnológica para uma pediatria tecnológica. Desenvolvi algumas coisas que achei importantes, como a unidade neonatalogia. Criei uma unidade de intervenção precoce, sobre a relação mãe-filho. “Apanhámos” com aquelas que ninguém queria, mães violadas, mães solteiras, mães que tinham algum problema, e procurámos criar a relação mãe-filho, que é a mais importante. É fundamental uma relação mãe-filho perfeita. Não tenhamos ilusões. Somos mais determinados pela mãe. O pai dá parte da genética, mas a mãe dá uma relação profunda muito antes de o homem poder fazer qualquer coisa. Se ele a trata mal, ela transmite isso ao filho. Se a acaricia e a trata bem, o filho recebe essas emoções.
Aprendi muito ao longo destes cinquenta anos. Comecei num tempo em que não havia antibióticos. A pediatria e a saúde mudaram imenso. Quando fui a França, em 1959, tinha vergonha de dizer a nossa mortalidade infantil. Hoje temos uma das mais baixas.
Hoje, é bom ser criança em Portugal?
É melhor na questão da saúde. Há menos doenças em criança e isso é melhor para toda a vida. Mas está-se pior na relação dos pais com os filhos, penso eu. Os pais separam-se, desentendem-se. As crianças sofrem imenso com isso. Por vezes consideram-se culpadas da situação. Depois, os pais entram em competição para conquistar o filho…
A criança é a maior vítima da destruição da família?
Desde a vida intra-uterina! A partir de certa altura, as emoções da mãe começam a ficar no subconsciente dos filhos. Se o pai se ausenta de casa, a mãe sofre, o filho sofre. Se a mãe é ameaçada de despedimento no tra-balho, o filho por nascer sofre.
Se quisermos ter adultos saudáveis e felizes…
…temos de melhorar a família e a vida infantil. Temos de ter uma família que seja uma relação de amor. A criança capta isso pelo subconsciente. Não há saúde e bem-estar mental sem amor. Dou-lhe um exemplo. Uma família queixava-se do desenvolvimento da fala do seu filho. E eu perguntei se passavam muito tempo com ele. Não passavam. Então, quem é que cuidava do filho? Era uma senhora búlgara. O filho não falava português, mas falava búlgaro. O meu conselho foi só: tenha tempo para ele, fale com ele!
Está a ser criado do Grupo de Bioética de Aveiro. É importante que existam estes grupos?
A bioética é um discernimento sobre a vida que não deve ser feito apenas por médicos, juristas ou teólogos. Chega-se à conclusão de que deve ser pluridisciplinar. É difícil que todos os cidadãos participem nas discussões de bioética, mas seria bom que caminhássemos nesse sentido, porque todos nascemos e todos morremos. Isto tem a ver com cada um de nós. As discussões sobre a vida não devem ser feitas nos gabinetes, mas resultar de consensos, ou pelo menos receber a contribuição do máximo de pessoas.
