À Luz da Palavra – XXIV Domingo do Tempo Comum – Ano B A liturgia deste domingo assegura-nos que não há salvação possível sem a experiência de cruz e de morte. Bem fugimos nós da cruz e do sofrimento, apesar de ele nos perseguir… Porém, o Senhor afirma-nos, neste domingo, que o sofrimento é parte integrante da salvação/libertação que Ele nos traz. Sem ele também nós não podemos tomar parte na glória de Jesus.
Na primeira leitura, Isaías apresenta-nos uma personagem bíblica denominada “Servo do Senhor”, que foi fustigada com muitas humilhações e vitupérios e que tudo sofreu com paciência e confiança em Deus. Esta personagem desafia os seus adversários a comparecer diante do tribunal… e afirma na-da temer, porque o Senhor Deus vem em seu auxílio. Revela, desta forma, uma confiança inabalável em Deus, uma capacidade de perseverança nessa confiança, no meio de tanto sofrimento e injúria. A fé cristã vê nesta personagem a figura de Jesus, na sua dolorosa paixão, obediente ao Pai até à cruz; por isso, foi exaltado na glória da ressurreição. Este texto é um veemente apelo à nossa relutância em suportar a dor, o sofrimento, a cruz, física ou moral. Imaginamos uma vida de puro gozo e revoltamo-nos diante do realismo da nossa existência. Como reajo eu diante da inevitável dor que desponta na minha vida e na do meu próximo? Abraço-a como salvadora na sua união à paixão do Senhor?
O evangelho termina com estas palavras de Jesus: “Se alguém quiser seguir-me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Na verdade, quem quiser salvar a sua vi-da perdê-la-á; mas quem perder a vida, por causa de mim e do Evangelho, salvá-la-á”. Estas palavras coroam o diálogo havido entre Jesus e os seus discípulos sobre a sua próxima morte e ressurreição, à qual Pedro se opõe violentamente, pois não pode aceitar que o Messias de Israel, termine assim num fracasso. Não é fácil para qualquer discípulo de Jesus, de ontem ou de hoje, perceber na fé o que significa tomar a cruz de cada dia e seguir o Senhor. Porque identificar-se com Cristo, na sua abjecção, como autêntico discípulo, e sentir-se feliz por poder sofrer em si mesmo e com os outros, só por amor de Jesus, não é tarefa fácil. Ainda funcionamos muito com a lógica humana do sucesso e do bem-estar e não com a lógica de Deus. Cristo funcionava a nível do «perder» e nós funcionamos como Pedro a nível do «ganhar». Qual é, afinal, a minha lógica?
Na segunda leitura, Tiago continua a interpelar-nos fortemente, em relação à nossa falta de coerência cristã. Somos peritos em dar bons conselhos, mas tardios em empenhar a nossa vida na acção concreta. De que servem as minhas palavras de consolação e os meus bons conselhos, se eu não ajudo a resolver as situações emergentes, que carecem de obras e não se compadecem apenas com palavras? Que cristão sou eu? Como pratico realmente a minha fé? O grande teste à nossa fé faz-se fora da igreja: na profissão, nas relações sociais, no compromisso com os problemas à nossa volta, nas atitudes e critérios com que nos decidimos, nos valores que defendemos e na vida que construímos. Sou cristão de palavras ou de obras?
Leituras do XXIV Domingo Comum -Ano B: Is 50,5-9a; Sl 115 (114); Tg 2,14-18; Mc 8,27-35
Deolinda Serralheiro
