Desfazer a mala

À luz do dia Ir de férias é uma ideia muito feliz. Sejam férias grandes, pequenas ou assim-assim, o que importa é poder ir.

Embora a partida esteja sempre associada a alguns gestos que só repetimos nestas ocasiões, há um verdadeiramente simbólico: fazer as malas.

O momento em que abrimos uma mala vazia e começamos a enchê-la de roupa, acessórios e objectos pessoais é fantástico.

Entre aquilo que sabemos que queremos levar e aquilo que apenas nos ocorre quando abrimos gavetas e armários, multiplicam-se as possibilidades de escolha. Levar mais do que precisamos é um clássico eterno. Pôr as malas no chão e sentarmo-nos vigorosamente em cima delas até conseguirmos fechá-las, apesar de estarem a abarrotar de roupa, é outro filme muito conhecido.

A tentação de levar coisas a mais é universal, aliás. Não conheço ninguém imune a este vício. E, no entanto, todos reconhecemos as vantagens de um certo despojamento.

Neste sentido, a partida para férias e o gesto de fazer as malas, escolhendo o que vai e o que fica, também podem ser usados como boleia para outra viagem: a do despojamento interior.Aproveitar este tempo de descanso para olhar para nós e ver o que trazemos connosco parece oportuno e, até, razoavelmente evidente, mas a realidade prova muitas vezes o contrário. Ir ao fundo das gavetas mais fundas, escancarar todos os armários e desfazer esta espécie de mala interior, que carregamos todos os dias, pode revelar-se um exercício delicado e exaustivo, mas profundamente catártico. Isto, claro, se o conseguirmos fazer sem defesas nem poses.

O medo de desfazer e voltar a fazer a nossa mala interior tem a ver com a quantidade de coisas que temos cá dentro. São tantas, tão variadas e tão caóticas, que é difícil perceber por onde começar.

Andamos quase sempre sobrecarregados de coisas (muitas delas muito contraditórias); e, por isso mesmo, é importante tomar consciência daquilo que trazemos connosco. Como? Olhando com olhos de ver, não nos julgando e assumindo que não há nenhum canto de armário ou fundo de gaveta que sejam intocáveis.

Ou seja, resistindo à tentação de esconder isto ou aquilo com o argumento de que “isto não porque já é muito antigo e aquilo também não porque vem de família”. E quem diz estes argumentos, diz outros parecidos com estes, que servem apenas para distorcer o olhar perante a nossa realidade mais íntima e profunda.

Alguém disse que toda a viagem começa em casa, no momento em que nos dispomos a partir. No momento em que fazemos as malas, talvez.

Também a viagem interior começa no momento em que abrimos a mala. Não para a fazer mas para a desfazer. Para ver o que temos guardado e o que precisamos de deitar fora.

Criar esta predisposição para o despojamento passa por querer muito arrumar a casa interior, por assim dizer, e por identificar aquilo que mais organiza ou desorganiza a nossa vida. Como só é possível ordenar a vida se ordenarmos primeiro os afectos, importa perceber que os problemas, os tesouros e as riquezas estão menos nas ideias e mais nos sentimentos. O coração é sempre mais importante que a razão, portanto.

O caos que temos cá dentro tem a ver com impulsos, desejos, inquietações, dúvidas, amores e desamores, que precisam de ser interpretados e organizados.

Despojar a razão e o coração é, por tudo isto, uma atitude exigente, mas extraordinariamente regeneradora. Revela abertura de espírito e mostra que estamos sempre a tempo de renascer. De certa forma, põe-nos a “zeros” com a vida e isso é muito bom. Seja à partida ou à chegada de férias.