Em cima da linha Era uma vez… uma escola, uma professora, os meninos e as meninas, e uma mãe.
Um certo dia, a senhora professora ouviu algumas palavras a que os seus ouvidos não estavam habituados. Não queria acreditar naquilo que ouvia. Supunha ela, como boa educadora que era, que os seus alunos eram incapazes de dizer barbaridades. Era e é habitual o uso de determinadas palavras que, por estarem para além da “medida” normal, se chamam palavrões. Palavras grandes, que nunca são grandes palavras. A professora, muito sensível às regras da boa educação, sentiu-se como que agredida, e, consciente da sua missão de educadora, chamou a criança e despertou-lhe a atenção para o que ela tinha dito. Assim mesmo, correcção adequada na hora certa. Porém, a sua intervenção de nada valeu, porque, nos dias seguintes, lá continuava a ouvir a mesma ladainha. Resolveu então, na linha de um verdadeiro projecto educativo, chamar a mãe da criança em causa.
A mãe, solicitada pela senhora professora – na altura ainda havia alguma consideração por aqueles ou aquelas que ensinavam e aturavam os filhos dos outros –, lá foi, pressurosa, à escola. Era uma escola primária. Saudações muito respeitosas, como manda a boa educação.
– Então, minha senhora, o que é que se passa?
– Olhe, diz a professora tentando minimizar o problema, o seu filho diz para aí umas asneiritas. Veja lá se ele consegue pôr um travão na língua.
– Ai sim, senhora professora, ai esse filho… diz dessas coisas? Deixe esse c… chegar a casa que eu já o … (trato).
A professora quereria ter ficado surda. Perplexa e surpreendida por ter ouvido muito mais do que aquilo que o garoto dizia, corou e concluiu:
– Pronto, minha senhora, mas não lhe bata, não?!
Estava tudo entendido. Não havia razão para castigo, a não ser que fosse para a mãe, porque o mal não estava no garoto, mas estava em casa: E como ninguém dá o que não tem, … com exemplos destes…
Isto não é uma fantasia, não é uma fábula, mas um acontecimento verídico. A senhora professora está agora com noventa e tal anos.
Porque há tantos casos semelhantes, eu podia mesmo acabar aqui, e toda a gente entenderia aonde quero chegar.
Todavia, quero ir um pouco mais longe.
– Afinal, o que é a educação?
Diz-se por aí que hoje já não há educação. Dantes é que era!
Pergunto:
– Havia mais educação ontem do que hoje? Haverá hoje mais educação do que ontem?
O dantes e o hoje nada alteram, porque educação é educação, ontem como hoje.
A educação não é um conjunto de regras, mais ou menos militares, com maior ou menor dose de etiqueta e protocolo; a educação não é um simples conhecimento de regras de boa educação, nem um rol de determinações sociais ou religiosas, dentro dos parâmetros comportamentais de uma sociedade somente preocupada com aquilo que parece bem ou fica mal.
A educação é algo que eu assumo como fazendo parte do meu projecto de vida, é uma atitude interior, assumida e livre, que gera comportamentos coerentes, é a descoberta dos valores que me apontam um caminho de responsabilização por todos as minhas palavras, pensamentos e atitudes. A educação sou eu próprio. As regras e os princípios só me ajudam se eu os assumo, porque, se assim não for, eu não serei mais que uma peça de um rígido mecanismo, cumpridor ou não-cumpridor.
Conhecer todas as regras da boa educação não é o mesmo que ser educado; conhecer todas as regras do Código da Estrada não significa, nem de perto nem de longe, que eu seja um condutor com civismo; estar por dentro de todas as leis do desporto não me leva, necessariamente, a ser um bom desportista; conhecer, por inteiro, os princípios e valores da religião cristã não me permite afirmar, com verdade, ser um bom cristão.
E isto faz com que a educação recebida na mesma família, nos mesmos bancos da Escola, possa gerar, e gere mesmo, educações diferentes, porque o sujeito que faz ou não faz a assimilação desses valores é diferente, indiferente, acolhedor ou adverso; mas a quem educa compete dar palavras e exemplos, mesmo que os seus filhos ou educandos não queiram seguir esse testemunho de vida.
Eu sou educado quando torno meus, com convicção, os valores que vou descobrindo e os que recebi pela comunicação dos outros.
