As palavras do Papa

1. Hoje, mesmo entre os católicos, discute-se o que o Papa diz e escreve como se se tratasse de um mero chefe político.

A situação atinge, na minha opinião, foros inimagináveis até há pouco, quando se ouvem ou lêem intervenções de eclesiásticos, obcecados pela linguagem politicamente correcta e religiosamente dissolvente.

Alguns dos servos da Igreja deixam-se mesmo enredar em juízos de oportunidade do instante, deixam-se embalar pela linguagem religiosamente correcta quase imposta por quem não crê!

Aliás, é tanto assim que os meios de comunicação social generalistas, a começar pelas televisões, sempre ávidos da discordância ou crítica sobre o Vaticano, convidam sempre os mesmos interlocutores, como se não houvesse outras vozes.

Foi precisamente o que aconteceu agora com o discurso de Bento XVI numa Universidade alemã, a propósito da relação entre fé e razão.

Cheguei mesmo a ouvir, no canal público de televisão, o entrevistado eclesiástico dizer que não nos devemos sempre “fiar” (esta foi a palavra) no que o Papa diz, com o enternecimento não disfarçado do pivot de serviço.

Com “amigos” destes, não precisamos de ateus, agnósticos ou crentes de outras confissões religiosas para atacar os fundamentos da doutrina ou reduzir documentos pontifícios a cartilhas de circunstância.

Ao mesmo tempo, tenho pena de não ouvir, salvo excepções a que os media pouco ligam, o Episcopado português explicar aos fiéis o que o Papa disse, o entorno em que o fez, quando nos são agressivamente atirados excertos descontextualizados e mal explicados.

2. A Igreja não é uma instituição de opiniões nem uma expressão mais ou menos mecânica e alienante de “mercado das almas”. É, sim, uma assembleia universal em nome da identidade baptismal e da comunhão em Cristo. Logo, sustentada na Fé, na Doutrina, em dogmas e em valores.

Por isso, e na minha opinião, a Igreja – é certo – vivendo no Mundo e para o Mundo, não se conjunturaliza ou se guia por inquéritos de opinião. Tem o seu ritmo de “aggiornamento”, para a construção do homem do futuro numa perspectiva terrena e salvífica.

Se tivesse seguido a maioria dos meios de comunicação social, a opinião publicada, muitos ateus e agnósticos e até algumas vozes da Igreja de fácil acesso aos media, o saudoso Papa João Paulo II deveria ter resignado. Graças a Deus, não seguiu e ficou claro por que não o fez.

Se tivesse seguido a maioria dos meios de comunicação social, a opinião publicada, muitos ateus e agnósticos e até algumas vozes da Igreja de fácil acesso aos media, o Cardeal Ratzinger jamais teria sido eleito Santo Padre. Graças a Deus, o Conclave escolheu-o depressa e consensualmente.

No mercado opinativo, sempre dado a simplificações estereoti-padas, que, muitas vezes, escondem uma enorme ignorância, a “etiqueta” para Bento XVI tomou foros de sentença passada em julgado: o Papa é, entre outras coisas, um conservador!

E diz-se conservador não como um qualificativo normal, mas quase ou mesmo com um tom crítico, se não mesmo condenatório ou abjuratório. Sim, porque dizer-se que alguém na Igreja ou fora dela é liberal ou progressista é um elogio ou um reconhecimento laudatório, mas chamar-se conservador é um anátema, uma forma de lepra social.

Claro que há sempre necessidade de reforma num mundo em mutação. Mas que esta não consista em “deitar fora o seu próprio lastro”, “em diluir, adaptar, aligeirar a Fé, mas aprofundá-la”, para citar o próprio Papa Bento XVI no notável livro “O Sal da Terra”.

Sobretudo na Europa, obesa nos vícios e frágil na espiritualidade, o novo Papa pode vir a ter um contributo decisivo na luta contra a cultura da indiferença, que larvarmente vai invadindo o velho continente. Se há pedaço do Mundo que necessite de uma nova evangelização e de um neo-missionarismo, é a Europa, onde para citar, de novo, Ratzinger “ muitas vezes o homem não está à altura da sua própria inteligência”, “onde não crer é mais fácil do que crer” e “onde temos de voltar a aprender a acreditar”.