Casal Maria Emília e Manuel Carvalhais De 1 de Novembro de 2005 a 8 de Setembro de 2006, Manuel Carvalhais e Maria Emília viveram e trabalharam como missionários na diocese do Brejo, no Maranhão. De novo em Calvão, o “casal diaconal” – como o diácono permanente Manuel Carvalhais gosta de dizer – faz ao Correio do Vouga um balanço do trabalho apostólico, num altura em que se aproxima o Dia Mundial das Missões.
Ser missionário não é exclusivo de padres e consagrados. É próprio de todos os cristãos. É próprio da Igreja. O contrário de ser missionário é não ser cristão, sequer. Esta consciência é cada vez mais forte entre cristãos, como de alguma forma o Correio do Vouga tem revelado através dos relatos das experiências missionárias que o Secretariado Diocesano de Acção e Animação Missionária tem proporcionado a jovens da diocese. Mas, desta vez, foi um casal que partiu em missão.
A estadia no Brasil de Manuel Carvalhais, 62 anos, reformado da banca, e de Maria Emília, 61 anos, reformada da Segurança Social, foi planeada com afinco sob o ponto de vista pastoral. Manuel Carvalhais revela os pontos do projecto: “Em primeiro lugar, queríamos criar solidariedade entre as igrejas locais de Aveiro e do Brejo. Em segundo, colaborar na pastoral familiar, principalmente preparando para o baptismo e para o matrimónio. Terceiro ponto: Exercer o ministério de diácono em encontros e celebrações da palavra. Por último: Valorizar a formação feminina com a criação de um centro de trabalhos manuais”.
O casal viveu na diocese do Brejo, mais concretamente em Chapadinha e Mata-Roma, numa casa cedida pela paróquia, mas suportando as suas próprias despesas. Na diocese do Brejo, trabalham padres de Sociedade Missionária Boa Nova (“missionários de Cucujães”) e o Pe Pedro José, da diocese de Aveiro. Até há pouco tempo, Jorge Carvalhais, filho do casal, também lá estava, dando aulas e organizando a Comissão Justiça e Paz.
O Estado do Maranhão é um dos mais pobres do Brasil. “Estão como nós estávamos há 50 anos”, conta Manuel Carvalhais. “Carentes de tudo, mas sem grandes objectivos. As casas têm chão de terra batida, mas nunca falta a televisão e aparelhagem de som”, acrescenta. As pessoas estão muito dependentes dos serviços na cidade e da agricultura no campo. Os campos são férteis, mas a mentalidade indígena predominante, “à espera que Deus mande chuva”, impede que a agricultura seja feita com técnicas e racionalidade.
Entre as muitas actividades que o casal desenvolveu, destacam-se o empenhamento na pastoral da família, que passou pela criação de uma equipa de preparação para o matrimónio ou por testemunhos na rádio e televisão locais, e as aulas de trabalhos manuais. Maria Emília, que nos últimos dois anos aperfeiçoara técnicas de pintura em tecido e gesso, em Portugal, orientou a formação. “50 jovens e mulheres aprenderam e receberam um diploma. No final, fizemos uma exposição com os trabalhos. Foi um êxito”, relata Maria Emília.
Em termos religiosos, o casal Carvalhais notou uma grande diferença e uma semelhança entre o povo brasileiro e o português. A diferença: As pessoas mudam muito facilmente de religião, entre a Católica, a Baptista, a Assembleia de Deus ou a IURD, “tanto de cá para lá, como de lá para cá”, diz Manuel Carvalhais. Por outro lado, a par da fé cristã abundam superstições e “ritos ancestrais que os índios tinham”. A semelhança: Na família, os problemas são os mesmos. Muitos divórcios, muitos abortos, muitos jovens que optam por “morar junto”. No meio de tudo isto, uma certeza: “O que mais nos impressionou foi o acolhimento das pessoas. Estavam ávidas de alguém que as escute”, diz Maria Emília.
No final da experiência, na hora do balanço, as palavras saem carregadas de emoção. “Sentimos a presença do Senhor. Em todas as nossas acções, se alguém aprendeu alguma coisa por nós, que o Senhor seja glorificado. Ficou lá um bocadinho do nosso coração”, diz Maria Emília. “Recomendámos vivamente a outros casais”, dizem os dois, quase em uníssono. “Se alguém puder dar algum tempo da sua vida, um ou dois anos… É algo que se faz sem esforço e que as pessoas recebem como dom de Deus”.
