D. António Marcelino na Abertura do Ano Pastoral É necessário lutar contra a tendência de pensar que a dissolução da família cristã é irreversível — convicção maior da Abertura do Ano Pastoral.
“Tenho duas notícias sobre a família. Uma boa e outra má. A boa é que vai deixar de haver divórcios. A má é que isso só acontece porque deixou de haver casamentos.” A anedota contada por um padre de Aveiro, uns dias antes da abertura do ano pastoral, reflecte de algum modo o espírito que por vezes transparece nas reuniões de cristãos, quando o tema é família: difícil ou impossível lutar contra a tendência do tempo, contra a dissolução da família alicerçada em valores cristãos.
O mesmo espírito esteve presente na abertura do Ano Pastoral, no dia 5 de Outubro. Perante o panorama das dificuldades que a realidade familiar enfrenta (os divórcios, a instabilidade, o casamento à experiência, o consumismo, o abandono dos idosos, a educação dos filhos…), no final da manhã, antes que o derrotismo invadisse por completo o salão do Seminário, cheio de padres, diáconos e agentes pastorais, alguém exclamou: “Chega de catálogo de desgraças!” E assim a tarde foi ocupada com uma amostragem do que de bom se vai fazendo na família, com a família e para a família (ver CV da semana passada). A tarde há muito estava planeada, mas serviu para contrariar o pessimismo que pairava sobre a “obra criada por Deus e conspurcada de muitas maneiras”, segundo expressão de D. António Marcelino.
“Criação de Deus”
A especial dedicação da diocese de Aveiro à família, no ano pastoral de 2006/07, justifica-se por muitas razões, mas, de alguma forma, tem expressão mais viva num episódio contado por D. António. Um dia, um responsável político queixou-se: “Quando se fala da família, vocês, bispos, saltam logo!” “Nem de outro modo podia deixar de ser” – contrapõe D. António Marcelino. Porquê? Porque “a falta de família é a maior pobreza da pessoa humana”. Porque “na família se aprendem os valores. Porque “a família é criação de Deus”. Porque “da família se parte para a evangelização da cidade”, porque, “sem verdadeiras famílias, não há sociedade, não há possibilidade de criarmos redes mais amplas de comunicação efectiva”. Porque “a família é a única realidade social que tem a ver com toda a gente”. Porque, “na família, aprendemos a amar”. Tudo frases proferidas pelo administrador apostólico, na abertura de um ano que, a partir de 8 de Dezembro, terá como pastor D. António Francisco dos Santos. Talvez por isso, a abertura do ano, normalmente pródiga em datas e grandes iniciativas (isto é, calendário pastoral), ficou pela enunciação das iniciativas, as quais o Pe Francisco Martins, director do Secretariado Diocesano da Pastoral de Família, já havia divulgado neste jornal (ver CV de 4 de Outubro).
“A Igreja não pode ser insignificante”
A abertura do Ano Pastoral foi precedida para uma conferência de D. António Marcelino, na noite do dia 4. Aqui ficam algumas das frases mais fortes do administrador apostólico da diocese.
“Preparar os jovens para o matrimónio não pode ser feito como há 10, 15 ou 20 anos…”
“Se não tivermos uma panorâmica mais alargada, não podemos ser úteis. A Igreja não pode ser insignificante.”
“A convicção de que o matrimónio é antiquado cresce na mente de muita gente.”
“Quanto mais ligados à família, mais construtores da paz, mais estáveis.”
“Estudos recente da União Europeia mostram que os jovens reconhecem na família o espaço privilegiado de apoio, para desabafar…”
“O modelo autoritário marido/mulher, pais/filhos, já deu o que tinha a dar.”
“Se não sabemos o que está a acontecer, somos pessoas a tentar deitar abaixo aviões com uma fisga.”
Recolha de Teresa Correia
