Paróquia, lugar vocacional

III Fórum Nacional das Vocações Realizou-se, no passado fim-de-semana, em Fátima, o III Fórum Nacional das Vocações, iniciativa da Comissão Episcopal Vocações e Ministérios. A temática escolhida – Paróquia Lugar Vocacional – integra-se numa dinâmica de continuidade com os dois anteriores: em 2004, reflectiu-se sobre as “Bases para a Pastoral Vocacional”; e em 2005, a temática versou sobre Diocese e Vocação, tendo o Fórum como título: “Da alegria de ser chamado à coragem de Chamar”.

Desta feita, contou com a presença do Pe Amedeo Cencini, que veio reflectir sobre três temas fundamentais: “A pedagogia vocacional na paróquia”; “Os dinamismos da Fé e a Pastoral Vocacional”; e “Os Itinerários Vocacionais”. Aqui fica o apanhado de um participante…

“A paróquia ou é vocacional ou não é paróquia”

Entendendo a paróquia como “todo o povo de Deus, que brota do lado do Crucificado, vivendo em determinado território, na abundância de carismas e ministérios concedidos tendo em conta a edificação comum e o anúncio do Evangelho”, foi possível afirmar que a paróquia ou é vocacional ou não é paróquia.

Se se fala de todo o povo de Deus, já se define como um espaço de fronteiras alargadas, onde é possível uma diversidade de carismas e ministérios, diferente da ideia simplista, que ainda vai vingando em algumas consciências, de que apenas o Padre é “vocacionado”. Mais ainda: se descende do crucificado, então a consciência do alto preço desta descendência há-de naturalmente desafiar a uma responsabilização pessoal no anúncio e no testemunho; aqueles que têm consciência de terem sido salvos sentirão, naturalmente, a necessidade de serem também eles veículos de salvação, os que foram evangelizados devem sentir a necessidade de evangelizar. Tudo isto acontecerá também num território mais ou menos definido, que é o espaço vital dos paroquianos, e que se alarga então aos ambientes de fronteira, onde a fé é questionada e onde o cristão adulto tem que dar razões da sua própria fé. Isto provocará naturalmente a tomada de consciência de que o espaço paroquial, quer por identidade (dom universal de vocação), quer por necessidade (ser activo e empreendedor no anúncio), terá que fazer desabrochar uma abundância de carismas e ministérios, que tornarão possível a edificação do reino, só plenamente conseguida se o anúncio do evangelho for efectivo e alargado. Claro que tudo isto só é possível se as comunidades não forem constituídas por “consumidores de sacramentos”. O desafio é claro: passar da “pastoral do redil” para a “pastoral das pastagens” (mas esta pastoral só é possível se todos os cristãos se sentirem missionários, agentes evangelizadores).

Três problemas

Existem, pois, três problemas que é fundamental ultrapassar: o mal da comunicação; o mal da comunhão; e o mal da identidade. O mal da comunicação reside no facto de não termos capacidade de transmitir ao mundo, sobretudo ao mundo dos jovens, o Dom de que somos portadores. O mal da comunhão está ligado aos problemas de relacionamento e de competências, da partilha de dons e carismas. E o problema da identidade prende-se com o facto da paróquia ainda estar à procura de um rosto novo – estamos em mudança de época, o esquema paroquial tradicional, até por causa da evolução do ritmo de vida e do sentido de pertença, terá naturalmente que ir evoluindo…

Claro que estes problemas, poderão estar ligados ao investimento quase exclusivo que se tem feito, em termos vocacionais, em apenas alguns ministérios (o de sacerdote – pastor e dos que lhes estão mais ou menos ligados). A paróquia estará em crise, porque continua a ser demasiado concebida e construída à volta da figura do presbítero.

Da fé à consciência da vocação

– Do formador ao educador

O protagonista do acto vocacional terá que ser naturalmente o Cristão Adulto. Aquele que fez uma caminhada de fé estruturante da sua pessoa e estruturadora da sua acção na comunidade. Quando se fala de vocação, não se trata apenas das vocações de especial consagração (aliás, o que é que torna essas vocações especiais em relação às outras?), mas da criação de uma consciência vocacional de fundo: à vida, ao baptismo, ao ser cristão, independentemente das opções pessoais dentro do sonho de amor que é o projecto de Deus.

Para que a pastoral vocacional não se confunda com “angariação vocacional”, naturalmente que o caminho tem que se centrar na criação de possibilidades para que os cristãos atinjam a dita maturidade da fé. Por arrastamento, e se a fé é autêntica, a vontade de responder ao acto de Amor Primeiro torna-se uma necessidade não imposta, mas livremente aceite.

Para que isto seja possível, é necessário que se desenvolva todo um trabalho de fundo, prévio ao desafio em relação a qualquer vocação mais específica: consagração, ministério ordenado, matrimónio… Assim, o dinamizador vocacional tem que ser mais um educador que um formador. Um educador para os valores da vida, para a sensibilidade do discípulo, para a consciência eclesial, numa abordagem mais englobante que visa a maturidade da pessoa toda. Não tanto um formador que debita conteúdos técnicos, ou demasiado específicos, para quem ainda não tem os horizontes alargados mas simultaneamente cimentados.

A pedagogia vocacional supõe um bom mediador, que o começa a ser quando tem consciência de ser apenas mediador. O que é belo não se impõe (e ser chamado por Deus é profundamente belo); mas para que apareça como belo, a comunidade cristã tem que naturalmente manifestar a alegria proveniente da certeza de ter sido convocada (chamada). O que lhe transmite a necessidade de provocar (ela própria chamar).

P. Rui Barnabé

Director do Secretariado Diocesano de Pastoral Juvenil e Vocacional

Amedeo Cencini

Amedeo Cencini nasceu em Senigallia (Itália) em 1948. É sacerdote canossiano desde 1971, mestre em ciências da educação pela Universidade Salesiana de Roma e doutor em psicologia pela Universidade Gregoriana da mesma cidade. Especializou-se em psicologia no Instituto Superior de Psicoterapia Analítica.

Actualmente, é professor de Pastoral Vocacional na Universidade Salesiana e de Acompanhamento Pessoal no Curso de Teologia e Direito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica. Desde Maio de 1995, é consultor da dita Congregação Vaticana.

Da vasta obra publicada, já estão disponíveis em Português: “O Pai Pródigo – História de uma vocação perdida e reencontrada”; “Quando a Carne é débil – O discernimento vocacional face à imaturidade e patologias do desenvolvimento afectivo-sexual”; “Um Deus para amar – A vocação de todos à virgindade”; “Uma Paróquia Vocacional – Que pedagogia vocacional aplicar na comunidade paroquial”.