Jesus Cristo O que pensou Jesus da política, do dinheiro, das mulheres? Colóquio sobre Jesus, com pensadores relevantes de Portugal e Espanha deu origem a livro que será apresentado na segunda-feira em Aveiro.
Quando dizemos “Jesus Cristo”, estamos a professar um minicredo, a confessar a fé de que Jesus é o ungido, o messias, o enviado, que é isso que quer dizer “Cristo”. O salvador. Mas a pergunta que Ele lançou aos seus companheiros, “quem dizem os homens que eu sou?”, ecoa pela história fora e obriga cristãos e não cristãos a dar-lhe uma resposta. Contudo, no credo mínimo em tamanho e máximo em significado, “Jesus Cristo”, corremos dois riscos. O primeiro é, sem fé, acentuar o Jesus da história, encerrando-o no passado de há dois milénios. Como se fosse apenas uma figura histórica como Platão, César ou Afonso Henriques. Marcantes no seu tempo, mas sem significado para a minha salvação. O segundo é “ficarmos pelo Cristo, pelo Senhor glorificado, esquecendo o Jesus da história, de Nazaré, o que ele queria, fez e disse, o que o levou à cruz”, como referiu Anselmo Borges, na abertura do colóquio “Quem foi (é) Jesus Cristo?”, que nos dias 8 e 9 de outubro de 2011 juntou no Seminário de Valadares (da Sociedade Missionária da Boa Nova) cerca de duas centenas de pessoas e conferencistas portugueses e espanhóis de topo.
O resultado deste colóquio surge agora em livro. Será apresentado em Aveiro, no salão do Seminário de Santa Joana, na segunda-feira, 19 de novembro, pelas 21h, numa sessão promovida pelo Instituto Superior de Ciências Religiosas, com intervenções do padres Anselmo Borges e do teólogo espanhol Xabier Pikaza, um dos presentes no Seminário de Valadares em outubro de 2011. Reportando-se ao Credo, agora aquele que todos os domingos é dito nas Eucaristias, P.e Anselmo Borges, organizador, deu o mote para todo o colóquio: “Entre o nascimento e a morte na cruz, como se proclama no Credo, o que se passou? Como se explica a morte na cruz? Há um grande esquecimento sobre o que Ele disse e fez no entretanto da sua vida, na relação com o dinheiro, as mulheres, a política, Deus”.
Biografia impossível
Xabier Pikaza começou por passar em revista as mais recentes investigações sobre Jesus. O tema da sua conferência foi “uma biografia (im)possível”, lembrando os resultados da pesquisa de Albert Schweitzer, que no início do séc. XX concluiu que a maioria dos historiadores projetam sobre Jesus as suas próprias ideias. Por outras palavras: escrever uma biografia de Jesus é algo de muito pessoal. Ao longo do século passado, porém, houve sucessivas vagas de interesse dos historiadores e teólogos por Jesus da Nazaré, não do ponto de vista da fé, que será próprio dos cristãos de todas as épocas, mas do ponto de vista da pesquisa científica. E hoje existem trabalhos como os de E. P. Sanders (um “agnóstico” que conhece bem o judaísmo do tempo de Jesus), Dominic Crossan (um católico que apresenta Jesus como um sábio e herdeiro das tradições judaicas da justiça), J. P. Meier (um padre norte-americano que apresenta Jesus como um “judeu marginal”) ou Gerd Theissen (que apresenta Jesus como “profeta carismático” e “poeta”). Observando que “toda a história é interpretação”, o teólogo espanhol ensaiou depois um conjunto de aspetos sobre os quais há acordo dos investigadores sobre Jesus: foi um profeta escatológico, anunciava o fim dos tempos; homem sábio, esperto e humilde, autor de parábolas, com uma moral de perdão aos inimigos, guru de um grupo de discípulos; foi poderoso nas palavras e nas obras, era carismático, conseguia transformar quem dele se aproximava e até os que dele discordavam; foi um homem da “mesa comum”, mesa aberta a todos, partilhada com pecadores e excluídos; entrou em conflito com os sacerdotes do tempo; morreu e “é histórico que um grupo de discípulos assumiu o seu projeto”; foi condenado pela elite sacerdotal, mas o responsável jurídico pela morte de Jesus foi o governador romano. Refletiu ainda sobre “questões disputadas nos últimos tempos” e refira-se agora apenas uma delas, que entretanto ganhou maior dimensão. “Jesus foi casado?”, perguntaram-lhe. “Tudo leva a crer que não. Seria difícil ocultá-lo, não aparecendo nos evangelhos nenhum indício de tal”.
Sobre Jesus e o dinheiro, refletiu o teólogo catalão, padre jesuíta, González-Faus, pondo no centro do pensamento de Jesus o seu dito de que “não se pode servir a dois senhores, a Deus e ao dinheiro”. Jesus falava em “mammon”, palavra aramaica para dinheiro e que nos evangelhos apenas é usada por Jesus. Ora, segundo Faus, elaborar hoje uma teologia da economia e do dinheiro, partindo da ação de Jesus, que é o princípio de toda a experiência cristã, no plano pessoal, eclesial e social, implica ser crítico para a economia atual. “O evangelho tem implicações económicas e sociais, mas o mundo parece encerrar-se à experiência religiosa”. O mundo “procura segurança com o dinheiro”, “compra-se tudo”. “O dinheiro abre todas as portas, criando um sentimento de domínio, gerador de emoções de índole religiosa”. Mas para o Jesus e os cristãos, a segurança está em Deus. Do dinheiro no lugar de Deus vem a “idolatria, a cegueira, a injustiça”.
Jesus não tinha
programa político
Em linha divergente com Faus, falou o eurodeputado Paulo Rangel. Divergente porque, se para o teólogo catalão ser cristão implica uma tomada de posição política que diríamos mais à esquerda, para Rangel, “não há no pensamento de Jesus um roteiro ou uma filosofia e ideologias políticas”. “Não há nele um pensamento maquiavélico, isto é, de sentido de captura de poder pelo poder”. O eurodeputado do PSD observou que não há no evangelho “enfrentamento de classes” e criticou os progressistas, que realçam um suposto modelo político da mensagem de Jesus, constituindo-o em agente da política. “Recuso a leitura conspirativa dos evangelhos e da pessoa de Jesus”, disse. Mas criticou também o esforço conservador de ligar poder e religião, igrejas e estados. Há, então, “uma imunização de Jesus à política e ao político?”, perguntou. E respondeu: “Não. Pelos discursos, atitudes e pensamentos de Jesus, que por vezes são fragmentos e possibilidades, o que há é um pensamento total ordenado à política, mas não um pensamento que se reivindique da política”. E continuou a explicar: “Jesus mergulha na realidade, mas não é radical; aspira à totalidade, mas não é totalitário. «O meu reino não é deste mundo». «A César o que é de César»”. Em resumo, as “categorias de Jesus transcendem a política” e caberá aos seus seguidores assumir as implicações da fé na vida da polis. A visão de Jesus é aberta a todos; a concretização da opção política dos cristãos, essa, poderá levar à “segmentação que alimenta a política”. Podemos, pois, lançar a questão: cada um de nós, consoante a nossa própria opção política, tenderá a ver Jesus por esse prisma? O desafio, porém, como apontou Rangel, é outro: assumir, encarnar, os valores de Jesus. E isso passa, até, como afirmou o eurodeputado, por “não transferir para os políticos responsabilidades que são nossas”.
Mulheres reveladoras
Isabel Allegro de Magalhães, professora universitária de literatura e membro do Graal (movimento internacional de mulheres), falando de “Jesus e as mulheres”, disse estar convencida de que Ele não foi um reformador social, mas que há na sua mensagem uma proposta ética e um “ethos” de inclusão, que permite que algumas feministas façam de Jesus o que ele não foi, um “militante dos direitos e igualdade das mulheres”. Mas claro que os evangelhos são ricos de episódios que implicam uma mudança de mentalidade em favor da mulher. Realçou , neste sentido, o diálogo com a Samaritana, quando decorre uma conversa aberta “inter pares” em que Jesus lhe faz uma revelação singular, comunicando-lhe que era o messias, o que acontecia claramente pela primeira vez. “A mulher disse-lhe: Eu sei que o Messias (que se chama o Cristo) vem; quando ele vier, anunciar-nos-á tudo. Jesus disse-lhe: Eu o sou, eu que falo contigo”. E é sintomático que Jesus ressuscitado apareça em primeiro às mulheres. Por isso, a professora considera que as mulheres sempre estiveram mais ligadas a uma cristofania [um revelar Cristo] do que a uma cristologia [um estudar Cristo], pela maior adesão à dimensão sapiencial e profética.
O colóquio contou ainda com intervenções de Antonio Piñero (“Jesus e a gnose”), Juan Antonio Estrada (“Jesus e Deus”), José Maria Castillo (“Jesus e a Igreja”), Juan José Tamayo (“Jesus e as religiões”) e Andrés Torres Queiruga (“Ressuscitar dos mortos”). Todas as intervenções, por vezes ampliadas, integram o livro que vai ser apresentado em Aveiro no dia 19. Anselmo Borges, que também coordena a publicação, disse a este jornal que “se o colóquio foi reconhecidamente bom, o livro é ainda melhor”, porque os assuntos são mais desenvolvidos. Em todo o caso, o livro só valerá mesmo na medida em que ajudar a responder à pergunta de sempre. “E tu, quem dizes que eu sou?”
Jorge Pires Ferreira
Fontes: http://pausresende.blogspot.pt/2011_10_01_archive.html; http://blogs.periodistadigital.com/xpikaza.php/2011/10/12/quien-fue-quien-es-jesucristo-oporto-201; http://blogs.periodistadigital.com/teologia-sin-censura.php/2011/10/13/hablar-de-jesus-fuera-de-espana
Um colóquio de liberdade e paixão pelo evangelho
Em outubro de 2011, Xavier Pikaza escreveu no seu blogue, sobre o colóquio de Valadares, que está na origem do livro “Quem foi, quem é Jesus Cristo” (ed. Gradiva), que “tudo se desenvolveu com uma grande dimensão intelectual e humana, num clima de esperança cristã”. “Conferencistas e participantes, dialogámos sobre os diversos aspetos do passado e do presente de Jesus, num contexto de ampla liberdade, de grande respeito e, no fundo, com uma grande paixão pelo evangelho, a partir de uma perspetiva confessional (católica), mas com abertura ao diálogo científico, com as implicações que hoje supõe e exige uma visão cristã da vida”. José Maria Castillo, outro dos teólogos presentes, também partilhou no seu blogue as suas impressões de estar no seminário dos missionários da Boa Nova. “Não foram estas comunicações meras palestras de divulgação”, escreveu na sua página pessoal na Internet. E lamentou que, “para quem vê as coisas a partir de Espanha, é penoso que, para falar com liberdade (e sempre com o respeito que merece a Igreja) publicamente e num espaço religioso sobre Jesus, tenhamos que sair do nosso país. Por que é que os espaços religiosos estão controlados entre nos de maneira que neles só podem expressar-se sem censuras quem se limita a repetir o que pensam e dizem os nossos bispos?”
Registe-se como nota muito positiva que, ao contrário do que é prática em iniciativas do género, a maior parte dos conferencistas esteve presente em todo o colóquio, possibilitando bons diálogos nos intervalos das conferências, nas refeições ou durante o café.
J.P.F.
