Nem cruzadas, nem trincheiras

Livro Para uma presença pública cristã estimulante em tempos de laicismo, laicidade e indiferença.

“A diferença cristã” não é um livro sobre a identidade cristã em geral, como o título da obra poderia levar a supor. É antes sobre a presença pública dos cristãos, sobre a Igreja na sociedade, que hoje Enzo Bianchi sintetiza nestas palavras: “Temos, por um lado, uma Igreja quase diariamente alvo de acusações nos meios de comunicação, por parte de um laicismo e anticlericalismo exacerbados e, por outro, de um modo equiparável, a retomada de uma atitude antagonista da Igreja em relação à sociedade e à modernidade, com uma série interminável de acusações. Corre-se o risco de que tal situação gere, dentro da Igreja, o medo de se sentir sitiada e, portanto, forçada a exprimir-se na defensiva, de modo apologético: uma Igreja que já não seja capaz de manter a sua posição no meio dos homens, num confronto pacífico”.

O fundador e prior da comunidade monástica de Bose, na Itália, que recentemente falou aos padres portugueses no Simpósio do Clero, escreveu este pequeno livro de cem páginas, porque está convencido de que a Igreja é “espaço de diálogo e de recuperação de princípios compartilhados, lugar de confronto entre éticas e atitudes individuais e sociais diferentes”, e “possui um património de sabedoria humana e espiritual que não deve ficar confinado aos espaços de culto privado ou às crenças de uma seita, por muito influente que esta seja”.

Faz todo o sentido ler e reler este ensaio cheio de teses que obrigam a parar para mastigar bem. No horizonte, intuímos a sabedoria do fermento, para além das cruzadas ou trincheiras. “Será possível que os cristãos manifestem publicamente o seu desacordo sem se organizarem em cruzadas e sem endurecerem a própria identidade, entrincheirando-se numa oposição hostil à sociedade?” São duas tentações fortes para os cristãos que não desejam um modelo de Cristianismo condescendente e acomodado.

Atitude de cruzada era, por exemplo, a “militância combativa” que precisava de adversários, fossem eles “os maçons” ou “os ateus”. Esse tempo passou. “São raríssimos os pensadores que envolvam o ateísmo numa batalha contra os crentes”.

Atitude de trincheira será a limitação do espaço dos cristãos às paredes do templo, perante a massa dos indiferentes.

Porém, defende Bianchi, “a única possibilidade que os cristãos têm é mostrar-lhes a «diferença» cristã através da sua vida, do seu comportamento e da sua forma de pertença à polis”. Claro que, para isso, é necessário mergulhar continuamente na identidade cristã, como bem elucida o parágrafo citado em destaque neste texto.

J.P.F.

Excerto

Responsáveis pela humanidade

“Quem não deixa enfraquecer a própria fé cristã, quem se mantém firme na mensagem evangélica recebida, sabe que o estatuto do Cristianismo é sentirmo-nos responsáveis pela humanidade, porque assim se comportou o Deus da Bíblia com a humanidade, estabelecendo uma relação desigual com Israel, assim se comportou Cristo com todos aqueles de quem se aproximou e com a sua Igreja, e assim se devem comportar os cristãos com quem não partilha a sua fé. Os cristãos não dialogam por se sentirem aflitos e contagiados pelo relativismo triunfante, mas porque o diálogo faz parte do seu estatuto constitutivo: fazer-se próximo do outro, escutar o outro, até tornar-se servo do outro.

Enzo Bianchi, in “A diferença cristã”, pág. 90-91