João de Deus Ramos, no Fórum :: Universal “Com uma visão privilegiada de historiador, diplomata, formado em Direito, e de membro da Fundação Oriente” – para usar as palavras do professor da Universidade de Aveiro Serrano Pinto – João de Deus Ramos proporcionou à meia centena de pessoas que se deslocou ao Centro Universitário Fé e Cultura (não tantas como a organização esperava e o tema prometia) uma viagem pela história e sonhos da China, o país mais populoso do mundo, a potência que neste século vai desafiar os Estados Unidos. O diplomata foi embaixador de Portugal na China e continua a visitar regularmente o país do Extremo Oriente. Aqui fica o resumo das palavras de João de Deus Ramos, na noite de 8 de Novembro.
A China tem sonhos
Em períodos, eventos, pessoas ou circunstâncias, surgiram características que funcionaram como motor social no país com a história (ininterrupta) mais antiga. São os três sonhos e uma característica da China: a Sabedoria, a Utopia, a Ideologia e o Pragmatismo.
Sonho da Sabedoria
A China funciona pelo intelecto e não pela espiritualidade (essa é a via da Índia). Confúcio (552-479 a.C.) é a figura tutelar. Se não tivesse sido chinês, teria dado origem a uma religião. Viajou de terra em terra, como assessor de poderosos, que o chamavam para falar. É, acima de tudo, um homem de conhecimentos alargados, inteligência e bom-senso.
Revolução anti-Confúcio
A Revolução Cultural (1966-1975) de Mao Tsé-Tung quis apagar Confúcio e o melhor que a civilização e cultura chinesa tinham. Curiosamente, ambos provieram da burguesia (Confúcio da alta, Mao da baixa). Hoje, o confucionismo, filosofia moral e política que abarca o indivíduo e a ordem do universo, está reabilitado.
Sonho da Utopia
Shi Huang-Di (259-210 a.C.) corporizou este sonho. Unificou os diversos estados guerreiros, tornou-se o primeiro grande imperador, quando a China tinha já 2000 anos de história. No túmulo deste imperador, foi encontrado o impressionante exército de terracota: milhares de esculturas de cavalos, carroças e soldados, em tamanho natural. Os milhares de soldados têm todos feições diferentes: escultura em cadeia de produção e ao mesmo tempo individualizada.
Grande Muralha
Shi Huang-Di impulsionou a construção da Grande Muralha, que, com 2400 km de extensão, é a maior estrutura jamais construída pelo homem. A muralha destinava-se a marcar a fronteira entre a civilização e os bárbaros.
Utopia à base do medo
Este imperador uniformizou os pesos, as medidas e a moeda e queimou os livros – coisa que nunca lhe perdoaram –, porque achava que as pessoas deviam ser governadas à base do medo, com castigos máximos e recompensas mínimas.
Sonho da Ideologia
A China teve 24 dinastias nos 2300 anos de governo centralizado. Na base das dinastias estiveram ideias, ideologias, no sentido de “como vamos gerir o império?”
Pragmatismo
Deng Xiaoping (presidente da República Popular da China entre 1975 e 1997) dizia que, “desde que os gatos apanhem ratos, não interessa de que cor são”. O pragmatismo – uma característica e não um sonho – foi o que permitiu que Macau estivesse 450 anos sob administração portuguesa e é o que faz hoje a China crescer em termos políticos e económicos.
Problemas actuais
Os líderes actuais são os primeiros que não são históricos do partido. Para eles, a Longa Marcha é uma nota de pé de página. Os problemas de agora são: como é que a China vai lidar com o abrandamento do ritmo de crescimento? Como lida com o problema da energia? Não é possível continuar a crescer ao ritmo de 10% ao ano por muito mais tempo. Como lida com a pirâmide demográfica, deformada por causa da “política do filho único”? A China vai lidar com pragmatismo, mas espero que prevaleça o sonho de sabedoria e sejam os promotores das mudanças ecológicas.
Novas relações
A China está a estabelecer relações inovadoras com os países pobres, principalmente de África e da América Latina. É alucinante o que se passa em Angola. No entanto, culturalmente, chineses e africanos dão-se mal.
Portugal e a China
O nosso país poderá tirar partido da ida de José Sócrates, em 2007, à China. Vai sob o chapéu da União Europeia, mas sendo português. Há um bom relacionamento declarado. Há nichos de colaboração possível. Macau é receptivo à CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa). Não há conflitualidade em relação a Portugal, como há em relação a outros países europeus, por causa das guerras do séc. XIX.
Os chineses
é que descobriam o Ocidente?
É a tese avançada por Gavin Menzies em “1421: O ano em que a China descobriu o mundo”. A obra do oficial da marinha britânica, publicada em português em 2004, durante algum tempo obteve ecos nos historiadores chineses, mas acabou por ser catalogada como “story” e não “history”. É pura fantasia.
Império do Meio
A China chama-se a si própria “Império do Meio”. Julga-se no centro do mundo. Daí que, quando os missionários ocidentais chegaram à China, os governantes exigissem que a China fosse representada no centro do mapa.
O que une a China?
Com províncias do tamanho da Europa e 1300 milhões de habitantes (os 25 países da União Europeia têm cerca de 500 milhões de habitantes), a China mantém-se unida devido a uma certa unidade geográfica, graças à língua (e principalmente à escrita pictográfica e ideográfica, uma vez que os chineses nem sempre se entendem quando falam, mas compreendem-se quando lêem), e fundamentalmente pela coerência entre civilização e cultura.
Liberdade de expressão
Cresceu exponencialmente na República Popular da China. Pode-se pensar e dizer o que se quiser, desde que não tenha consequências na ordem política estabelecida. Os Jogos Olímpicos de 2008 serão um texto curioso à liberdade de expressão.
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6 de Dezembro, 21h, no CUFC
