Eu arrependo-me

Editorial A Campanha de Quaresma em curso convida-nos, durante esta semana, a uma atitude de arrependimento. “Eu arrependo-me” é o valor proposto para a progressão no caminho para Deus.

A expressão soa a tradicionalismo, para não dizer que o seu odor é o do bafio húmido de sacristia, do mofo de compartimentos sem janelas, impenetráveis ao sol e a qualquer forma de arejamento sadio.

Todavia, o arrependimento nada tem a ver com uma patologia de complexo de culpa, uma doença psíquica e espiritual que nos faz remexer continuamente a lama do passado, sem horizontes de futuro.

Pelo contrário: uma revisão honesta do dia a dia levar-nos-á sempre a descobrir muitas coisas boas, que necessitamos de potenciar, como também de falhas ou caminhos menos correctos, que urge corrigir.

E aqui se situa precisamente a questão do arrependimento. É tão somente ser verdadeiro na apreciação dos caminhos que trilhamos, reconhecendo, com pena, algum tempo perdido, energias gastas sem sentido, atropelos à nossa dignidade e à dos outros, indiferenças ou hostilidades para com o Amor por excelência… Só essa atitude – reconhecimento de perda e desejo de recuperação – nos permitirá progredir, seja a nível puramente humano, seja a nível espiritual.

Falta, nos nossos dias, esta atitude de verdade e humildade. Uma falsa auto-estima, que tem o nome de presunção, cega o coração e o espírito, impedindo assumir e lamentar os erros, para tomar a decisão de alterar caminhos, acolher advertências e sugestões de melhores rumos.

A correcção fraterna é um preceito evangélico. Aceitá-la supõe, exactamente, esta atitude de reconhecimento e pena da falta cometida – por acção ou por omissão – e acolher a proposta de ajuda, dentro de um sentido genuíno de Comunidade, em que todos nos prejudicamos ou nos ajudamos mutuamente.

Não são ingénuas nem inócuas estas indicações simples de caminhada espiritual. Diria mesmo: elas são, as mais das vezes, preciosas pistas para refazermos um harmonioso clima pessoal interior, com reflexos no tecido das nossas relações sociais (a começar pela família), com efeitos visíveis nos nossos compromissos eclesiais.