“Fome a viver numa criança” (Continuação da semana passada. Conclusão do relato da experiência missionária em Moçambique)
Chega a madrugada. A oração com a comunidade de missionários que me acolhe é alimento indispensável para aguentar o dia de revelações e de escuta, tanto como o mata-bicho a seguir.
O meu dia era sobretudo escuta, ouvir pessoas, ouvir os lugares. Quando se vai pela terceira ou quarta vez, já não se vai fazer experiência para depois olhar o mundo de outra maneira e ir trabalhar por isso na nossa terra. Depois da primeira vez, vai-se com um propósito. O meu era ouvir e depois tomar notas. Tecnicamente ‘elaborar um levantamento de necessidades’. Isto é, ouvir, com atenção e respeito, para depois voltar e aí sim, com ajuda de todos, arranjar maneira de acabar com estas necessidades, por meio de um projecto, uma campanha, uma sensibilização, que a nós, na Europa, não custa muito mais que entusiasmo, dinâmica, força, consciência e comunhão! Quando a Igreja descobrir a força que tem quando o é em comunhão,… o mundo muda!
Numa das manhãs, a visita de ouvir e ver ia ser perto e só de um dia. Era a Tete, capital da província do mesmo nome, a pouco mais de 15 km de Moatize, a vila onde fica a Missão onde eu estou e que viveu da extracção do carvão, no tempo em que não havia fome mas havia outras atrocidades e que os portugueses faziam render (a extracção do minério).
É pequena a vila, pouco mais que uma avenida que é um pouquinho da estrada estreita e internacional que vai ter ao Malawi, a uns curtos 80 quilómetros, e, para o outro lado, a Tete, no fim da estrada, do outro lado da ponte. Parece a 25 de Abril, mais pequena e da cor da chapa, não pintada. Foi feita por portugueses, para carros ligeiros. Os camiões que entretanto surgiram, com mercadorias para e do Malawi, passam um de cada vez e a um limite de 10 km/h.
Passamos a ponte. Não pagamos a portagem como protesto. É escandaloso uns pagarem e os do poder e “seus amigos” não o fazerem. Já não há autoridade que se atreva a questionar este protesto perigoso do Pe. Kazembe, da Missão de Moatize, que se arrisca a sofrer alguma das boas, com as posições que tem costume cristão de tomar, quando vê injustiça a pairar. Não faz mais porque não o deixam.
Tete é maior. Tem lojas dos chineses, dos indianos, algumas poucas de moçambicanos. Algumas estradas estão alcatroadas e, mesmo com a condução à direita, consigo orientar-me e, ao fim de algum tempo, consigo ir onde é preciso.
Desta vez, era uma casa em construção, uma obra social das Irmãs do Preciosíssimo Sangue.
Para chegar, lá subimos por uma rua estreita e lamacenta, quase impossível até para um land rover! Esgotos a céu aberto subsistem nas traseiras escondidas da cidade, o que já é um sinal de que o desenvolvimento está por aí perto. Ou será porque a primeira-ministra é de Tete? Prefiro pensar que é a primeira hipótese.
Passo por um portão de chapa, novo, ouço cantorias de crianças alegres lá dentro. É um centro de acolhimento a órfãos e miúdos da rua. Os “miúdos dos semáforos”, como me explicam e relaciono, como quem pede uma esmola, para conseguir interiorizar porque é que uma criança no mundo de hoje ainda tem de passar por isto na vida… Por que é que ainda há, alguns anos depois de compromissos internacionais tomados, o redondo número de 850 milhões de pessoas sem o que comer. Nesta obra estão trinta dessas. Enquanto cá estão, são mais que estatística. São pessoas.
Foi uma delas, em tamanho pequeno mas alma grande, que mudou muita coisa do meu mundo, minutos depois.
Entrei, eu e o Pe Kazembe, congolês, filho de um rebelde e de mãe embaixadora. Desde cedo aprendeu a pensar. O facto de os pais terem de se encontrar às escondidas não fazia muito sentido. Depressa percebeu que haver guerra sempre que há eleições no Congo ou no Zaire (ou seja lá qual for o nome do país) não faz qualquer sentido, como a injustiça das portagens. Veio como missionário para Moçambique e dá assistência à comunidade e obras das Irmãs de Tete.
As crianças estavam nas suas brincadeiras e cantorias, dançavam uma dança que lhes nasceu na cultura africana de espantar todos os males em danças e costumes ancestrais. O nosso acolhimento é feito assim, dançar e cantar, mostrando alegria pelas visitas. Olham-nos como alguém que se lembrou deles, num mundo em que os que pensavam e tomavam conta deles por uma razão ou outra já partiram ou não têm nada de seu.
Quando se começaram a apresentar individualmente, um rapazito, franzino, com pouco mais de um metro de altura, levanta-se. Sozinho, com toda a gente sentada e mãos unidas à frente como se fosse na fila da comunhão, começou a falar.
– “Eu sou o Nelson. Tenho dez anos. Vim aqui ‘prás’ Irmãs me – gaguejou – me dá, me darem ajuda. Eu não tenho pai e vivo com minha mãe. É só”.
A força da entoação e a dor que transpareceu no miúdo, quando disse que não tinha pai, não é possível descrever. Ficou órfão por causa da guerra. A mãe não tem emprego, os filhos são muitos e campos agrícolas na cidade não os há. Vivem na rua, o ganha-pão é da rua que vem e quase nunca dá para nada.
Este miúdo explicou ali o que significa a palavra coragem. Não disse que vinha do latim “cor” (coração), aquele que tem firmeza no coração, no espírito. Não disse mas mostrou o que era, mostrou que pede ajuda para um dia dar a volta ao destino e à vida, mostrou com entoação e força, não querendo fugir da realidade: “Eu não tenho pai e vim pedir ajuda.”
Houve silêncio durante uns segundos. Pareceu-me muito tempo. Ainda agora ecoa por aí, mesmo que tentemos não pensar no que vimos e ouvimos, porque são coisas duras demais. Sou muito pouco ao pé de tanto que vi.
É duro sabermos que existe fome, que existe gente órfã de tudo, que vive numa pobreza absoluta quase como aquela criança, o pequeno Jesus, cujo nascimento os centros comerciais já começam a celebrar.
Juntemo-nos a eles e sejamos coerentes. Se dizemos, fazemos, porque mudar o mundo está apenas ao alcance do nosso trabalho e atitude. Não é por nós, por sermos melhores ou piores, é pelo discurso directo do Nelson, que não tem pai, que não vai à escola, que não come certo todos os dias, que tem apenas dez anitos, que tem nome e rosto e existe, neste preciso momento em que estou a escrever, nalgum lado em África.
Será que ele está com fome na rua, nos semáforos, ou estará ao abrigo da casa e do acolhimento das Irmãs, no sítio onde o mais bonito do amor de Cristo se junta à triste consequência da egoísmo do ser humano: fome a viver numa Criança.
Isto já não devia existir.
Pedro Neto
