D. António Baltasar Marcelino “Darei o que é meu e dar-me-ei a mim mesmo pela vossa salvação” é lema episcopal de D. António Marcelino, que expressa bem a disponibilidade interior e a paixão apostólica com que assume o ministério em terras de Aveiro. Este lema lança também uma ponte com o estilo de S. Paulo e a urgência de fazer a verdade na caridade, de sentir e interpretar o desafio dos “tempos novos”, de promover a unidade e a comunhão entre todos como sinais inequívocos da Igreja de Jesus Cristo.
“Enquanto for Bispo de Aveiro, sê-lo-ei a tempo inteiro” – declara em situações diversas, após ter completado 75 anos, idade canónica para a resignação do exercício do ministério de Bispo residencial, e durante o período em que aguarda a resposta do Santo Padre.
De facto, esta é a constante mais notória da vida de D. António Marcelino: Assumir por inteiro e até ao fim a missão que recebe, em 20 de Janeiro de 1988, sucedendo a D. Manuel de Almeida Trindade. Doar-se totalmente, como já vinha fazendo noutras terras. O ministério que realiza expressa bem a sua rica personalidade. Também aqui a acção constitui a “epifania” do ser.
Atento, como poucos, aos “sinais dos tempos”, animado pelo mais genuíno amor a Jesus Cristo, que quer servir em cada pessoa, determinado em criar as condições indispensáveis para que o Espírito renove a Igreja diocesana, próximo e familiar de todos, sobretudo dos que sofrem e dos que assumem especiais responsabilidades nos serviços da Igreja e da sociedade, o Bispo Marcelino sabe situar-se no ritmo do tempo, às vezes apressando a própria hora, cumprindo uma agenda cheia de iniciativas e propostas. E a agenda de papel, quase sempre sem espaço para mais, constitui apenas uma memória de quanto há para fazer e lhe parece inadiável.
Atenção permanente
O seu ministério é um ministério de comunhão com outros bispos, com o presbitério diocesano, seu cooperador necessário, e nas formas adequadas com os leigos e as religiosas. Abrange, na prática, todas as áreas da vida e missão da Igreja. Dificilmente se encontrará qualquer desatenção a questões sociais importantes ou a assuntos relevantes de interesse pastoral. Se nem sempre surge a resposta adequada, a possível explicação terá de se encontrar na complexidade de factores que convergem na renovação de um conjunto, na motivação de vontades livres e na opção pela salvaguarda da unidade e da comunhão.
A rica pluralidade de áreas de intervenção atinge a sua expressão maior em quatro iniciativas de vulto: o congresso de leigos e o sínodo diocesano, as visitas pastorais e os serões arciprestais, a formação actualizada dos agentes de pastoral e o reforço aos cristãos no mundo, o ministério ordenado e os recursos materiais indispensáveis. À volta destes núcleos gravita uma variedade enorme de actividades de que constitui um testemunho eloquente a agenda publicada semanalmente no “Correio do Vouga”. Registo especial merece a relação privilegiada com o “mundo dos saberes”, sobretudo com a Universidade de Aveiro.
Grandes iniciativas
O Congresso realiza-se em 1988, coroando uma caminhada de preparação que pretende abarcar a diocese toda. O tema central versa sobre a missão dos leigos na Igreja e no mundo, em sintonia com o Sínodo dos Bispos e o Congresso Nacional dos Leigos. A riqueza da temática e a dinâmica da participação, o número de pessoas envolvidas e a experiência de comunhão reforçam as condições indispensáveis para a realização do Sínodo Diocesano, que D. António Marcelino anuncia no encerramento.
Este Sínodo – o II da nossa Diocese – é oficialmente convocado em 1990, decorre ao longo de cinco anos em grupos de reflexão e de oração, em assembleias gerais de participantes de quase todas as paróquias, do presbitério, das comunidades religiosas e dos secretariados e movimentos, e produz vários docu-mentos: as “Orientações Pastorais”. Dedica uma sessão especial a debater, em ordem a assumir, as “Decisões Sinodais” que, entretanto, o Bispo Diocesano havia elaborado e proposto. A dinâmica sinodal é experienciada por milhares de cristãos que exercitam e saboreiam a alegria de caminhar juntos, de sentirem a sua palavra escutada e acolhida.
Os serões arciprestais constituem uma forma privilegiada de comunicação, debate e encontro entre o Bispo Marcelino e muitos responsáveis por serviços locais e pastorais. Os temas são de circunstância, conforme a problemática mais preocupante ou mais oportuna para as associações culturais, desportivas e outras de voluntariado social. D. António manifesta um alto apreço por este tipo de associações que constituem o tecido vivo, consistente e funcional, de uma sociedade plural organizada.
Prioridade à formação
A formação dos cristãos é outra das suas preocupações maiores. A atestá-lo estão, a nível institucional, o acompanhamento solícito dos movimentos apostólicos e dos institutos de vida consagrada, a construção do CUFC iniciada em 1987, a criação do ISCRA em 29 de Junho de 1989 e a remodelação de alguns espaços do Seminário de Santa Joana para instalar este Instituto e acolher pessoas e grupos, além de pretender conservar o edifício, o Plano Diocesano de Formação Cristã 2000/2005, as Cartas Pastorais, a Caminhada Sinodal sobre os Jovens e as correspondentes Orientações para a Pastoral Juvenil em 2005. Está também a relação pessoal de ajuda e a comunicação escrita – de que é exemplo a colaboração semanal no “Correio do Vouga”, que se apresenta agora em três preciosos volumes intitulados:” A vida também se lê”.
O ministério ordenado – padres e diáconos – constitui a prioridade das prioridades na missão de D. An-tónio Marcelino. A ele dedica o melhor da sua solicitude. A saúde e a formação dos padres, a sua vida espiritual e pastoral, a constituição do Fundo Diocesano de Compensação do Clero em 1992, a situação dos que passam dificuldades, a visita assídua aos seminaristas, a ordenação de diáconos permanentes em 1988 e seu contínuo acompanhamento são marcos indeléveis de uma infatigável doação.
Estas iniciativas não surgem desconexas, mas fazem parte de um todo que prossegue um único objectivo: Que a Igreja diocesana se renove, para melhor servir a sociedade de que faz parte, que Aveiro possa contar sempre com uma Igreja viva e actuante nas causas humanas mais nobres, que os agentes pastorais se qualifiquem, que os cidadãos-cristãos estejam à altura de dar as razões da sua esperança e de testemunhar um sentido gratificante e digno para a vida que, em Jesus Cristo, se realiza de modo pleno.
