Palavras de D. António Marcelino

D. António Marcelino escreveu e escreve abundantemente, sempre partindo da vida e para a vida, exprimindo opiniões próprias ou no cumprimento da sua missão de bispo. Escolher alguns excertos de especial significado revela-se tarefa impossível. São demasiados os que poderiam aqui ser citados, como o leitor compreenderá pela leitura da coluna semanal da última página deste jornal ou dos textos recolhidos nos três volumes de “A vida também se lê”. Optou-se, por isso, por seleccionar algumas passagens da “Saudação Pastoral à Diocese de Aveiro”, no dia 7 de Fevereiro de 1988. São textos que nortearam a acção de D. António Marcelino e que se revelam, volvidas quase duas décadas, plenos de actualidade.

Lema episcopal

Desejei também acrescentar ao meu lema episcopal “Fazer a verdade na caridade” (Ef 4,15), outra palavra de S. Paulo que muito me estimula e exprime os meus sentimentos: “Darei o que é meu e me darei a mim mesmo pela vossa salvação” (II Cor 12,15).

A gente de Aveiro

Aveiro, a sua gente e toda a sua região, tão ricas de valores humanos, históricos e culturais, cidade e região sobejamente conhecidas pela sua abertura à liberdade e à tolerância, bem como pelo respeito ao pluralismo sob todas as suas expressões, estão actualmente perante um desafio de carácter global, de cujo êxito depende, em grande parte, o seu futuro, não apenas no campo económico e social, com o qual alguns parecem apenas preocupar-se, mas também no campo cultural, moral e religioso.

Sociedade em mudança

De facto, uma sociedade em mudança exige uma pastoral missionária, dinâmica e inovadora. E esta não se faz sem um esforço sério e contínuo de renovação pessoal e comunitária. Só assim se poderá inculturar a fé numa comunidade humana concreta com o total respeito pela mesma.

Igreja ouvida, desejada

e respeitada

É neste sentido que a Igreja entre nós terá de caminhar, para que possa ser uma voz ouvida, desejada e respeitada no mundo da cultura, do trabalho empresarial, da política, da gente do campo, da ria e do mar, dos serviços, das profissões liberais, das inovações tecnológicas, da saúde e da segurança social, dos tempos livres, dos meios de comunicação social e, sobretudo, das escolas, precisamente pelo investimento que socialmente significam as gerações novas que as frequentam.

A missão é vocação de todos

Só esta coragem da missão será capaz de destruir as rotinas, respeitando as pessoas nas suas capacidades e ritmos, sem complexos em relação ao passado, nem angústias e triunfalismos em relação ao futuro.

A coragem da missão por força da fé não é, na Igreja, monopólio de ninguém, nem privilégio de pessoas ou de grupos. É antes apelo e vocação de todos, sem excepção.

Trabalhar com todos

Queremos e devemos trabalhar com todos os homens de boa vontade e de coração sincero, aos quais damos as mãos a bem da comunidade aveirense, empenhado-nos em comum para que o progresso tenha rosto humano e não lhe falte nunca a alma dos valores morais perenes, e daqueles que sempre informaram a região de Aveiro e todas as suas gentes.

Aos jovens

Aprendei Jesus Cristo, na sua Pessoa e Mensagem, e não vos deixeis fascinar pela bagatela e pela mediocridade. Tomai a sério a vossa vida e dai-lhe, na honradez humana e na fé consciente, a garantia de um sólido alicerce futuro. O vosso bispo, que é também um vosso amigo, precisa de vós, pela necessidade que tem a sociedade e a Igreja de famílias felizes, estáveis e generosas.

Coração como o de Cristo

Para mim e para todos os meus colaboradores, continuarei a pedir todos os dias ao Pai que, pela acção do Espírito, me dê e nos dê um coração sensível como o de Cristo, capaz de amar a todos, de servir a todos, de sofrer por todos.

“Tu sabes tudo, Senhor,

bem sabes que Te amo”

Não quero nem posso querer outro programa de vida ao vosso serviço, irmãos.

Porém, se na minha fraqueza e debilidade nem sempre Deus for louvado como merece, e nem sempre vós fordes servidos como é meu dever, pedi comigo ao Senhor e por mim, para que, ao menos como Pedro, possa passar no exame do amor a Cristo e com um coração humilde e confiante, olhos nos olhos, diga a verdade ao Senhor: “Tu sabes tudo, Senhor, bem sabes que Te amo”.