Rescaldo

É preciso ler as entrelinhas. Os números do Referendo não falam por si sós, sem a conotação com a totalidade dos eleitores, para além do enigma das intenções abstencionistas e do peso da politização (leia-se partidarização) de uma questão que é, antes de tudo, civilizacional, integrante de um quadro de valores subjacente à alma dos povos e não apenas objecto de uma regra social.

É importante notar que mais de 56% dos portugueses eleitores não votaram. Não podemos dar parabéns à democracia, por este mesmo facto. Poderia tal abstenção querer dizer que a maioria dos portugueses não considera a vida referendável – e seria uma grande vitória da vida e da própria democracia.

Provavelmente o que ela significa é um alheamento de muitos em relação a questões fundamentais. Nesse caso, todos teremos de nos preocupar com a abstenção. E os donos do poder, dos aparelhos partidários que se empenharam na mobilização, bem poderão considerar a sua escassa capacidade de mobilização…

De qualquer modo, votaram “sim” apenas pouco mais de um quarto dos que têm direito a voto, apesar da forte mobilização do Governo e de alguns partidos. Como votou “não” um quinto dos inscritos. E é claro que esta última cifra resulta essencialmente da mobilização dos cidadãos, sem significativos “impulsos” partidários. Não há, por isso, possibilidade de avaliação equitativa e confronto igual destes resultados finais.

Ganhou claramente a consciência de muitos: disseram-se argumentos científicos, ficaram também a descoberto motivos ideológicos e concepções redutoras da pessoa e da vida humana, foram mesmo visíveis contradições em alguma argumentação, observaram-se posições sensatas e esclarecedoras, a par com alguns radicalismos sem sentido… Esse trabalho de informação e educação vai continuar! Como vai continuar o empenho daqueles que, de há muito, puseram o seu interesse em acolher e proteger a vida, mesmo com a indiferença ou o magro apoio do Governo. Essa perspectiva de esclarecimento e educação, de apoio concreto aos problemas que estão na base da discussão, é a mais valia de toda a campanha!

Pena é que já se perfilem no horizonte os oportunismos dos interesses económicos, com anunciadas aberturas de clínicas estrangeiras para a realização do aborto. Até que a lei venha a ser alterada e regulamentada, alguma tinta vai correr. E tem de correr! Já que qualquer cidadão se pode perguntar legitimamente com que direito um Estado, que não suporta iniciativas de cuidados de saúde primária com qualidade, vai usar os nossos impostos com fins sanitários que não respeitam as convicções dos contribuintes.